O que aconteceu com o Rio de Janeiro?

“O Rio de Janeiro continua lindo…”

Há divergências sobre o fato. Uns dizem que tudo estava planejado. Outros que foi tudo de última hora. Há também aqueles que defendem que mesmo com tudo planejado, a saída se deu em meio a muita correria e tumulto – é a defesa de um meio termo. O fato é que as tropas de Napoleão avançaram sobre Portugal naquele início de século, sitiando Lisboa e colocando a Família Real em pânico. A decisão de partir em direção ao Brasil – ainda a mera colônia – se tornaria um marco histórico para todo o ocidente. A metrópole partia em direção a colônia transformando toda a dinâmica da teia de relações entre Portugal x Brasil x África.

O Rio de Janeiro recebeu a corte de braços abertos. Tão abertos que o cheiro do suor foi sentido ainda nos navios! Foi preciso meter a mão na massa, literalmente, para transformar a então vila em uma cidade capaz de abrigar uma família real europeia. O Rio de Janeiro se tornaria a única cidade das Américas a ser a capital de um império. Deixava para trás o título de colônia, e se orgulhava de sediar o Reino de Portugal, Brasil e Algarves. Não pense que isso era pouca coisa. Portugal daquela época não era a pouca coisa de hoje! Espanhóis e portugueses ainda carregavam nos ombros todo o glamour dos séculos XV e XVI.

Depois disso, o Rio de Janeiro nunca mais perderia o protagonismo nacional e até internacional. Abrigou a família real e se tornou a capital do Império. Na República vivenciou um processo de urbanização semelhante ao de Paris, se tornando a Bella Epoquè dos trópicos. Viu Deodoro destronar Dom Pedro II; a Princesa Isabel lacrar o fim da escravidão com sua pena; Vargas se suicidar com um tiro no peito. Foi a casa de Machado de Assis. Deu ao mundo o samba e o carnaval; a praia e o futebol; o Maracanã e a Garota de Ipanema. O morro se tornaria a casa do mais ilustre de seus habitantes, Zé Carioca, a maior homenagem que o Wall Disney poderia fazer ao Brasil. Brasil esse que era o Rio de Janeiro, e o Rio de Janeiro era o Brasil. Mas a história foi cruel.

Como centro de tudo e de todos – menos econômico, porque São Paulo já era a locomotiva do país no meio do século XX – os cariocas viram tudo se desmanchar feito um castelo de cartas. Juscelino tirava a capital do Rio e levava para o cerrado do Brasil. Brasília nascia. O próprio JK disse escolher o local por ser o “coração do Brasil”. Mas ele estava errado. O Coração do Brasil era o Rio de Janeiro. O transplante mal sucedido fez nascer um monstro no meio do nada, quase um Frankstein. O Rio levou uma punhalada pelas costas, e a ferida jamais se fecharia.

A realização de grandes eventos como o Pan 2007, a Copa 2014, e por fim as Olimpíadas de 2016, pareciam ser o curativo necessário para fechar essa ferida e estancar o sofrimento de mais de meio século. O Rio de Janeiro recebia mais uma vez o tratamento que nenhuma outra cidade do mundo havia recebido, algo com o qual ela já tinha se acostumado no passado. Mas isso não foi suficiente. A ferida se tornou grande demais!

Os problemas com a violência, as favelas, o transporte precário, a poluição da Baia de Guanabara, os precários prédios da Vila Olímpica, tudo isso é sinal de uma cidade que mostrou não ser capaz de se recuperar novamente. Tudo que podia ser feito pelo Rio, foi feito, inclusive o estrago maior, tirar a sua centralidade. Dessa punhalada pelas costas, o Rio nunca mais irá se recuperar. São Paulo se aproveitou e se tornou não só a locomotiva da economia, mas também a metrópole cosmopolita da nação. Brasília abocanhou toda a política, e também a politicagem.

O Rio que perdeu o Zé Carioca nos morros, abraçou o tráfico – e a gora a milícia. O metrô não chegou, e as vans irregulares (e controladas pela milícia) tomaram conta de tudo. O dever de casa para com o saneamento não foi feito, e a beleza natural foi manchada pelo esgoto e por todo lixo. A gênese do carioca incorporou e naturalizou a imagem da Cidade derrotada, como aquela que não foi capaz de se defender diante do ataque de um mineiro. O que resta ao Rio de Janeiro talvez seja apenas um auxílio psicológico, já que o trauma maior não pode ser apagado. Foi isso o que aconteceu com o Rio de Janeiro.

Licenciado em História pela UFRuralRJ, cursando especialização em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.
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2 thoughts on “O que aconteceu com o Rio de Janeiro?

  1. Interessante a vontade de muitos cariocas em apagarem a tocha. Na verdade, em todo lugar do Brasil por onde ela passou, houve isso. O Brasil não se vê sediando uma olimpíada, não se vê oferecendo isso. O Brasil se vê recebendo coisas, não dando. O carioca é um necessitado que afoga as mágoas na cerveja e no mar.

    1. Apagar a tocha virou quase uma questão de honra. É o mesmo movimento da Copa em 2014. As pessoas perceberam que é possível fazer o serviço público no Brasil ser nível “Fifa”. O que falta é vontade política.

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