O ‘Fora Temer’ e a crise de representação

Os protestos do “Fora Temer” são tão legítimos quanto eram os protestos do “Fora Dilma”. E a composição de ambos vai muito além de “coxinhas e mortadelas”.

Existem, sim, no Fora Temer, aqueles que querem, no fundo, um “volta Dilma”. Assim como no Fora Dilma existiam os que queriam um “volta ditadura”. Mas nos dois você vê muita gente que faz questão de dizer que essas “pautas ocultas” não as motivam para ir às ruas. Parece que o que continua motivando as manifestações é, no fundo, a crise de Representação Política, aquela que ninguém sabe direito quando exatamente começou.

Acontece que ninguém mais quer ser representado por políticos que só representam a si mesmos. Ninguém mais quer fazer parte de um processo de escolha que começa com indicações monocráticas dos partidos políticos — por que nós não podemos escolher quem deve se candidatar à Presidência? Ninguém mais quer, na verdade, depender somente de partidos políticos.

Nós percebemos, em pouco tempo de democracia, que a forma como o sistema representativo foi montado acaba colocando a classe política de um lado e a sociedade de outro. E o resultado disso, em um país politizado como o Brasil, é uma revolta constante da população contra os políticos. Nada mais legítimo do que isso.

Dilma agiu como se ela e o seu grupo fossem os donos do Brasil. Caiu. Temer, aos poucos, começa a fazer o mesmo. Se não cair também, provavelmente não conseguirá governar até 2018. Já está perdendo o apoio dos aliados e já começou a recuar em pautas impopulares. E aqueles dilmistas que falam em golpe continuam inofensivos — meros motivos de piadas, como eram os defensores da ditadura militar nos protestos do Fora Dilma.

Se engana quem pensa que as manifestações são por objetivos políticos de curto prazo. O brasileiro aprendeu que há momento certo para formar uma multidão e ir às ruas contra uma pauta do seu interesse, e que se unir a multidões implica em ser tolerante e aceitar que diversas posições políticas estejam lado a lado. À longo prazo, isso pode tornar o sistema político muito mais representativo do que é atualmente, e outros governos podem acabar caindo por causa da força das ruas.

Acadêmico de Filosofia pela PUCRS. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Pesquisador colaborador do CEFA. Editor adjunto da revista Redescrições, do GT Pragmatismo e Filosofia Americana da ANPOF. Também é membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society.
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One thought on “O ‘Fora Temer’ e a crise de representação

  1. A classe política não consegue entender o que está acontecendo. Os “militontos” também não. Acham que a disputa continua esquerda X direita. É necessária uma abertura de mentes para entender os movimentos de rua pós 2013. Muita coisa mudou. As pessoas não estão mais se movendo tanto pela política, e muito mais pela situação prática de seus cotidianos.

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