A hospitalidade

                                                                                               *Dedicado ao meu tio, Mauro Ricardo de Mattos.

Após lutar com o furioso mar, Ulisses chega à terra dos Feácios. Está exausto, dorme atirado na vegetação. Escuta vozes de donzelas. Levanta-se. Aparece para as donzelas com o corpo carregado de sal, suor e cabelos. Tal visão aterroriza as mulheres. Elas correm em debandada. Apenas Nausica permanece, pois no espírito Atena lhe incutira coragem. O estrangeiro, mestre das palavras, fala que se há uma deusa, ela está diante dos olhos dele. A jovem repreende as criadas, e as faz voltarem e mostrarem ao estrangeiro a hospitalidade daqueles que temem a Zeus.

As criadas banham o desconhecido, esfregam azeite em seu corpo. Atena lançou um encanto, fazendo Ulisses parecer mais alto e mais musculoso. Aos cabelos deitaram-se cachos aloirados. Nausica comenta com uma das criadas como seria bom se um deus a concedesse desposar aquele homem. A princesa orienta o estrangeiro a chegar na casa de seu pai, e destaca um grupo de criadas para acompanhá-lo.

Ulisses parte e logo chega ao destino. Ao contrário do que fizera em outras terras, quando anunciou a si mesmo “Ulisses, de fama conhecida pelos deuses, e agora cantado pelos aedos”, desta vez não dissera o próprio nome. Ajoelhado, pediu à rainha ajuda para voltar para casa. O rei disse que lhe ajudariam, e ordenou que lhe alimentassem e acolhessem.

Naquela tarde, os jovens começaram uma competição atlética: lançamento de discos, de dardos, corrida a pé, a cavalo e pugilato. Um deles convida o estrangeiro, pois havia reparado em seu porte atlético. Ulisses afirma estar muito cansado da dura briga com o mar para chegar até a terra deles. O jovem, então, diz que logo se via que ali não estava um atleta, mas um comerciante cioso apenas dos seus ganhos, e que por acidente viera ter ali. Ulisses sente-se atingido, e afirma que em Tróia ninguém rivalizava com o seu arco e sua coragem, os guerreiros amigos contavam com ele e os inimigos o temiam. Ele participaria, então, do pugilato, do lançamento de discos e de dardos. Não participaria, contudo, da corrida a pé e de cavalos, pois para o primeiro ele realmente estava desabilitado, e no segundo, ele reconhecia a superioridade dos feácios. Caso fosse novamente envolver-se em combates, Ulisses faria jus àquele povo, chamando seus cavaleiros.

Ulisses atira o disco muito além das marcas dos competidores locais. Também atinge grandes resultados no lançamento de dardos e no pugilato. Mesmo estando ali como um estrangeiro desconhecido, Ulisses diz ao rei que se sentira ofendido com os comentários daquele jovem. Sabendo reconhecer as virtudes de quem as possui, assim cumo Ulisses reconhecera as virtudes dos feácios na montaria, Alcino ordena que o jovem faça uma ação de desagravo. O jovem, reconhecendo os valores de Ulisses, dirige-lhe um discurso de desculpas, também entregando um presente valioso.

Posteriormente, enquanto confraternizavam, um aedo cantava sobre a Guerra de Tróia. O Grande Ulisses era louvado como um bravo combatente, excelente para os amigos, sofredor de grandes dores. O estrangeiro esconde o rosto em lágrimas. Percebendo isso, Alcino pede àquele homem que fale sobre si mesmo, sobre as coisas pelas quais passou. Ulisses toma o lugar do aedo, e conta o caminho que o levou ali, passando pelo cíclope, pela feiticeira Circe e até pelo Hades. Finalmente, ele apresenta a si mesmo, dizendo o próprio nome.

Um homem pode não precisar falar de sua virtude para pessoas que sabem ser hospitaleiras com estrangeiros. Receber bem significa não só dar de comer e beber: inclui considerar a possibilidade de o desconhecido ser digno de louvor. Tratar bem um estrangeiro é abrir-se ao que ele tem de bom e que pode, é claro, beneficiar o grupo. O menosprezo é um sinal de descortesia, é uma quebra da aliança entre povos, aliança esta que existe entre pessoas que não se conhecem, por pertencerem a povos diferentes. A hospitalidade é um “receber em casa”, em uma casa que antes não era a dele, e um “fazer com que o outro se sinta em casa”, na própria casa dele. Mostra a virtude de quem é hospitaleiro.

Em um outra terra, poder adentrar a casa de alguém, e fazer desta casa a sua própria, mantendo, logicamente, a primazia do primeiro aspecto, o do “adentrar a casa do outro, respeitar o seu ethos”, ou proporcionar isto a um estrangeiro, é permitir que haja trocas ao mesmo tempo conservadoras e renovadoras das características do local, além de oferecer ao estrangeiro um solo para ele dar o melhor de si. 

Quando um homem, porém, está entre conhecidos e não é considerado em sua dignidade e em seu valor próprio, o ataque que ele sofre é o de estar sendo retirado da comunhão, da comunidade, e o de ser lançado a ter que provar a própria importância. Isto faz com que o trabalho de sua vida seja dobrado, pois ao que ele já realizou deve somar a prova do que realizou. Se entre desconhecidos a consideração com o outro é devida, entre familiares ela é fator de sobrevivência do grupo. Uma família ou comunidade funda-se em histórias de pessoas que fizeram o que foi essencial para eles estarem ali, e indicam o caminho do que ainda há por ser feito, e do que é preciso que alguém tenha, para fazê-lo.

Ter o próprio valor questionado por sua família é ser posto no caminho inverso ao da hospitalidade: no primeiro momento, desaloja-se o indivíduo da casa dele mesmo, dos muros que ele construiu e que guardam as suas caracteristicas; no segundo momento, coloca-se o indivíduo na soleira da porta, próximo à expulsão da “casa dos outros”. Primeiro, “você não tem um lugar”; segundo, “você não tem lugar aqui.”

A hospitalidade, acolhida de vidas, traz bençãos dignas de Zeus. O contrário disso não pode levar a boa coisa.

Imagem: Jean Veber – Ulysses and Nausicaa, 1888.

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