Confusão e cansaço do eu

Na sala, os jovens conversavam sobre “Thirteen Reasons Why”. Uma moça cometeu suicídio, na série, e enviou fitas para treze pessoas que, segundo a história, significavam as razões do que ela fez. O filósofo Byung-Chul Han tem a tese de que vivemos um excesso de eu: o tempo de poder disciplinar, vinculado a instituições, arquiteturas e saberes, tão bem descrito por Foucault, e a sociedade de controle “a céu aberto”, dita por Deleuze, que são formas que acessam os indivíduos a partir de fora, são secundarizadas pelo controle do indivíduo sobre si mesmo. Ele é chamado para ter uma opinião, uma posição, uma opção. É chamado a desempenhar estas coisas, incluindo seu trabalho. O indivíduo é seu maior chefe, seu maior avaliador. Ele é seu próprio analista, porque não?

Mas, o que tanto ocupa esse eu? A tese de Han não deve ser entendida como um contraponto à tese da “pressão externa”, dita pelos jovens. Se ela for lida em conjunto com a ampla tese da esferologia, de Peter Sloterdijk, saímos da falsa separação estanque entre “eu” e “outro”.

A esferologia de Sloterdijk diz o seguinte: na situação intra-uterina, placenta e feto formam uma esfera. Entre eles há tecidos, líquidos e vibrações. E eles ainda não são sujeito e objeto, feto e placenta, mas um aqui e um com. Cada um de nós é, desde o início, participante de uma dupla, um aqui, “onde estou?”, junto de um com, “acompanhante de quem?”. Sons externos são recebidos e causam vibração, no líquido amniótico. São filtrados, e vão formando um pré-psiquismo acústico naquele que poderá vir a ser a criança.

Então ocorre o que chamamos de nascimento, que é a separação da dupla. O recém nascido receberá ar, receberá a respiração da mãe, e então a voz dela. Mas essa voz vem depois da voz do anjo, um anjo sonoro, que acompa a criança. A mãe será o terceiro pólo da esfera. Em sua maioria, as vozes que habitam o indivíduo não são dele mesmo. São dele, pois nele penetraram. Mas, quando ele procura dizer algo “dele mesmo”, mesmo que seja um pensamento, uma fala de si para si mesmo, isto ocorre por um certo compromisso naquilo que fala nele.

As esferas simbióticas feto e placenta, depois criança, anjo e mãe, sofrerão rupturas e reconstruções, para que novas intimidades possam ser formadas.

Para Sloterdijk, sujeito é aquele que se autoconsulta, escuta a voz interna que ele entende como sendo a dele próprio, e então se põe pra agir, se autodesinibe. No entanto, observa Sloterdijk, não temos conseguido nos descongelar. E não temos conseguido parar de agir meio que compulsivamente, o que é repetitivo, inercial. Temos precisado de consultores para nos dizer o óbvio, e nos alavancar para agir. E não paramos de agir da mesma forma, pois as vozes que circulam em nós são todas iguais a mim.

Han coloca que não temos experimentado alteridade, outridade, mas o outro como um diferente próximo, um diferente igual a mim. A personagem da série tem algo em comum com quem a assiste: um episódio tem uma emoção muito semelhante à outra, ocorre uma igualdade entre o 1, o 2, o 3… o 13. Treze vozes, treze episódios (não sei se a série tem essa quantidade de episódios, mas não importa para o que quero dizer), todas iguais a mim. Não busco a minha voz, dentre estas.

A menina se matou por treze razões, e deu a entender que as treze razões dela são as razões do outro. Ela morreu por razões que são dela e também do outro. “Jesus morreu pelos nossos pecados”, mas veja o quanto ele foi sujeito, tendo feito o que fez por uma razão outra do que as dos pecados! A confusão de razões, da menina, acompanha a confusão da punição com aquele ato (quem ela quis punir, com a própria morte?). Adultos que também não conseguem se colocar para agir, ou que não conseguem discernir o porquê de fazerem o que fazem, e por isso não param, vêem a mesma coisa no jovem: ele tem tempo livre, não faz nada mas, se fizer, irá pela cabeça perigosa dos outros. Sua melhor companhia é uma série e, a partir dela, não sairá ponderando sobre as coisas, mas a tomará como um outro maciçamente colado ao eu, e que o levará para onde os personagens quiserem.

A personagem confunde as razões alheias como devendo ser a dela própria. Ela está distante de elaborar uma posição. Isso ocorre num momento em que o jovem é cobrado por ser um eu, uma identidade, um elemento seguro de pensamento e ação. Cansada desse eu que, ao ter que desempenhar, toma as razões dos outros como sendo as próprias, ela se matou.

Os adultos, a partir do justo temor pelos atos dos filhos, apostam que eles realmente farão essa confusão entre outros e si mesmo. Jovens e pais unem-se para falar que os primeiros sofrem pressão externa influenciadora. O que os pais não percebem é que estão lançando para os filhos a enorme demanda por serem eus, e também o cansaço disso.

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