A acusação de inveja é insegurança, vocação autoritária e incompetência

Quando um midiagogo acusa alguém de inveja, ou deixa sua claque assim fazer, ele já provou que é um midiagogo

Anos oitenta no Brasil. Tempo de uma prática comum entre as esquerdas: não dar interlocução para críticos, principalmente críticos internos. Se alguém de esquerda ganhava alguma fama acadêmica, quase que de imediato adotava tal prática. Ficava na chamada “posição olímpica”. Mesmo quando a crítica era pertinente e quando permitiria um crescimento intelectual de todos, a resposta não vinha. Alguns adotavam a prática de responder em privado, e assim fingiam ser democratas e abertos, quando na verdade isso era um modo de censura, de exclusão do outro.

Agora, após o nascimento do intelectual midiagogo (o midiático demagogo que se diz professor), que estuda pouco e fala muito, a prática da esquerda também atingiu a direita, mas não é só a do silêncio. A moda é a patifaria de acusar os críticos de “invejosos”. Como a inveja é o pior dos males, aquilo que todo mundo sabe que existe mas é incapaz de dizer que sente, e como se trata de algo subjetivo, tal acusação torna-se irrespondível. “É a inveja”, dizem os chefes de claque do midiagogo, por sugestão dele e, depois, por iniciativa própria – afinal, são seguidores! Não conseguem ver que se alguém critica alguém, apontando um erro, o alvo da crítica é aquele que é acusado de estar errado, portanto, não é motivo de inveja de ninguém, muito menos inveja vinda do crítico. Alguém acha que o outro está errado, critica-o, mostra suas falhas, e mesmo assim o inveja? Não mesmo! Quem quer invejar o errado?! A acusação de inveja é ideológica e matreira.

Mas qual a razão dessa matreirice ter se generalizado? Qual a razão pela qual um midiagogo se preocupa em dizer que seu crítico é invejoso, e já de antemão, antes de fazer qualquer coisa, já dar suas primeiras palestras avisando que “inveja vem do incomodo pela felicidade do outro”? Claro, se o midiagogo fala só coisas vazias, ele mesmo não dá atenção para o conteúdo do seu discurso, não estuda, fala jargões, adere a posições fáceis e meramente políticas e, então, está predisposto a reduzir os embates intelectuais não como chance para discutir problemas reais, mas apenas como uma competição para ver quem tem mais purpurina no tablado. Subjetiva tudo. Aliás, sua atitude é tão anti-intelectual e ignorante que acaba até por conceituar a inveja de modo errado.

A inveja é uma doença dos olhos. Mas ela não necessariamente está ligada à raiva pela felicidade do outro. Gente que não lê os gregos, para ver que a inveja tem uma baba verde, que joga no peito do invejado à noite, ou seja, ataca às escondidas e não em artigos e posições pública, não sabe o que é a inveja. Quem faz uma crítica pública está muito longe da figura clássica da inveja, na tradição greco-latina. A inveja não se mostra. Mas o midiagogo é ignorante também da tradição judaico-cristã. Não leu a Bíblia, não sabe que o episódio da inveja aparece no contexto da discussão da justiça. Caim ataca Abel às escondidas, sim, mas o faz porque não suporta a injustiça divina. Podemos ler assim o episódio: todos nós temos o direito de nos revoltarmos contra a injustiça. Mas, se exageramos, não estamos entendendo que Deus é, não raro, uma força natural (no Antigo Testamento), e que não faz as coisas por merecimento.

Quando temos uma cultura geral mínima, uma formação de um bom ensino médio, e vemos essas duas fontes da inveja, não cometemos o erro de qualificá-la de modo como um ataque ao outro pela sua felicidade, assim, de um modo simplório. Só faz isso o ignorante.

Todavia, independentemente dessa conceituação da inveja, o que está na prática do midiagogo é a insegurança diante da reflexão conjunta, da crítica, e o desespero que emerge dessa situação e que, então, como sempre, desemboca no autoritarismo. Diz ele para a sua claque, tão ignorante quanto ele: “diga que é inveja e então calaremos o pretenso crítico”. É a posição menos nobre possível. A mais medíocre. Golpes de estado militares para fazer calar críticos são patifarias menores diante de quem quer calar com a acusação “é inveja”. Pense nisso.

Wittgenstein disse que um intelectual que não entra no embate da crítica nunca é como o lutador que jamais entrou no ringue. No Brasil o midiagogo é o lutador que sobe ao ringue, mas só fica lá se ele puder ficar sozinho, dançando e rebolando. Ele fala e dança, mas ele não ousa ouvir e responder. Ele é o midiagogo.

A inveja tem uma aparência horrível? Garanto que a acusação de inveja tem um rosto bem pior, o rosto da covardia.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 28/07/2016.

Filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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One thought on “A acusação de inveja é insegurança, vocação autoritária e incompetência

  1. A zona escura do ser e do dizer

    Um especialista fala na tv. Na sala de casa, comenta-se à vontade. Mas que não se ouse respondê-lo em público! Caso você faça isso, o especialista ou o público dele te colocarão de volta no seu lugar, aonde ninguém te ouve.

    Paulo chamou de midiagogo aquela pessoa que estudou um pouco mas, ao invés de utilizar isso para propor frases em um ambiente de fazer pensar, de fazer outras pessoas também dizerem frases, adotou um discurso que inibe frases novas.

    Leandro Karnal parece estudado, mas ao falar, por exemplo, de religião, não vai além de um discurso comum. E não faz ninguém sair do lugar. Este discurso é o que todos dizem, ao se referirem à religião. Em relação a esse tema, há os que o vivem e há os que falam sobre ele. Os segundos, não raro, repetem um senso comum. O especialista e sua plateia parecem fazer circular um discurso novo, ou profundo, mas falam o mesmo discurso com outras palavras.

    Há, entre eles, uma relação de espelho: o que um tem é o que falta ao outro. O que o primeiro tem é na medida do que falta ao outro, ambos acreditam nisso. Com Lacan, o universo simbólico é inesgotável, pois uma palavra sempre reenviará a outra, e isso também responde pela incomensurabilidade do inconsciente. Já o discurso é um vocabulário restrito, e combina bem com a pretensão do eu em ser completo e coerente.

    O midiagogo quer ser o “eu que sabe”, e sua platéia quer ser o “eu que precisa saber”. Mas esse saber e esse não saber são saber x e não saber x. O jogo, aí, não tem furos. O midiagogo apresenta-se como o submetido às regras da linguagem restrita, e o seu público como aquele que quer se iniciar.

    Sentimo-nos plenos, mas confessamos uma certa falta, como se faltasse uma figurinha em nosso álbum. Levamos essa falta para quem tem a figurinha certa. Com isso, o eu pensa se completar. Será que, na primeira esquina, ele não perde a figurinha, só para ter que retornar na próxima semana? É difícil distanciar-se do espelho.

    Uma outra forma de lidar com os saberes é perceber que, para cada frase, há algo a ser dito. Pensar é percorrer uma ideia e então dizer algo mais. Esse algo não se quantifica, não se sabe o quanto não se sabe algo. O público do midiagogo imagina saber o quanto precisa aprender a mais: é a distancia entre ele e o midiagogo.

    No midiagogo não há qualquer sombra de dúvida! A posição dele é feita justamente de parecer um ponto de chegada confiável. Mas não há ponto de chegada. Diferentemente do saber do especialista, o grande Outro é incomensurável para quem nasce mergulhado nele. Seguimos regras de linguagem, mas cada coisa que dizemos nos faz dizer mais coisas, se não estivermos preocupados em frear nossa fala, em nome de um eu.

    Cada saber é cercado de zonas escuras. Cada eu, também. Isso é um potencial para se dizer coisas novas a respeito deles. Ao homem não é possível ser tudo ou dizer tudo. Não se atinge a totalização. Mas algo se é e se diz. E se deve ser e dizer, afirmativamente, para que se seja e diga mais.

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