A africana que segura os bagos

Como explicar o gesto da  garota sul africana?

Há basicamente quatro grandes teorias filosóficas modernas sobre a formação da subjetividade. Na tradição cartesiana, a subjetividade é unitária e se põe antes que o mundo. Na tradição marxista a subjetividade é fruto da cooperação vinda do trabalho. Há também os que, como Habermas e outros, enfatizam a subjetividade como elemento que se faz pela interação social chamada linguagem. Por fim, há os que, como Sloterdijk e Thomas Macho, e talvez Martin Buber, pensam a subjetividade como uma díade uterina que se estabelece por ressonância e sinestesia.  Nesse último caso, os mecanismos de mímesis, tão notáveis em nós, estariam precocemente constituídos.

Uma placenta e um futuro feto são antes de tudo um dois em um. Ali se faz a intimidade e então a subjetividade. É dessa sinestesia que a mímesis se torna importante. Dar o que o outro pede para que a ressonância se faça. Eis o nosso “fato primitivo”.

Para compreender a jogadora sul-africana na barreira, diante de Marta (foto), não vejo como utilizar de outro modelo senão do último. A força da mímesis se impõe sobre a do aprendizado formal e, portanto, sobre a linguagem, e também sobre forças de autopreservação, portanto, das práticas advindas da interação ou de “instintos” puramente individuais solitários. Diante de um chute forte como o de Marta, a jogadora sul africana protege o que não tem que proteger, e leva às mãos aos órgãos genitais. Uma clara mostra do comportamento mimético: mas vale o que ela viu (e não viu pouco, dado o êxito do futebol masculino) que qualquer outra coisa. Mais vale copiar que fazer o certo. Mais vale a sinestesia da mímesis que qualquer outra coisa. E eis que as mãos conformam a figura em campo como se fosse um jogador e não uma jogadora.

Nessa hora, começamos a compreender o papel do outro na formação da subjetividade, mas não mais como um outro que vem “depois”, mas de um outro que é nos é inerente, que nos é uterino. Caso ele viesse depois, como imagem visual, competiria de igual para igual com a linguagem, ou seja, com o aprendizado, e com a auto-proteção dita natural. Com a linguagem e o aprendizado, as mãos se dirigiriam para os seios. Com o trabalho, a interação social também empurraria as coisas para tal postura. O mesmo se houvesse um instinto individual de proteção. Mas não, as mãos foram procurar a sinestesia  e a mímesis, a imitação do outro que somos nós mesmos segundo o que está entranhado em nosso corpo muito antes de qualquer outra coisa. Se sempre estamos em ressonância com outro, desde o útero, então tudo à nossa frente, depois, ganha enorme importância. A mímesis tem aí uma força que não vem depois, mas vem desde sempre. Somos díades sinestésicas e miméticas. Somos copistas, mas copistas precoces. Nossa subjetividade é desde sempre formada no âmbito de uma intimidade que se faz por sinestesia e mímesis. Uma vez já crianças, tudo que nos dá ressonância e, portanto, tudo que se faz como o outro, ganha extremo poder sobre nós, torna-se um componente forte de nossa subjetividade. Fazer o gesto do jogador de futebol e não da jogadora é uma disposição da mímesis, a disposição de voltar-se para o outro. A imitação valorativa é um modo já desenvolvido do anterior prazer uterino de estar em ressonância com a placenta.

Uma antropologia da díade é mais atinente à barreira sul-africana que qualquer outro modelo de formação da subjetividade. Outros modelos não explicam o caso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo. São Paulo, 10/08/2016.

Filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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One thought on “A africana que segura os bagos

  1. Bem interessante. Fiquei pensando no conceito de habitus de Bourdieu e o quanto o mundo social nos dá evidencias do que ele propôs.

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