A boa aparência*

 

A bela mulher volta para a cidadezinha onde passou a sua infância. Os meninos a perseguiam, um deles em particular batia nela. Um dia este menino morreu, diante dela, menina, e de mais ninguém. Ela então cresceu distante da cidade.

Ao retornar, sofreu acusações de assassina. Ela e sua mãe eram consideradas perigosas. A cidade era pequena e rural, com vizinhos que sabiam das vidas uns dos outros, e um prefeito que se achava o dono do lugar. A forasteira mostrou-se com vestidos que chamavam muita atenção. Finalmente chegou, por ali, algo que valia a pena ser olhado.

Ela começou a fazer vestidos para as mulheres tristes do lugar. Vestidos que mostravam o colo, as pernas, eram de cores vibrantes e com tecidos reluzentes. Faziam com elas descobrissem belezas que não achavam que tinham. Não, que não tinham mesmo, pois, o que somos além do que mostramos para nós mesmos e para os outros? Ou o que se mostra em nós, sem que queiramos?

As mulheres surpreendiam-se consigo mesmas. O xerife da cidade também surpreendia-se consigo próprio: às escondidas ele gostava de se olhar nos espelhos, usando vestidos. Ele não resistiu e também pediu para se vestir daquela forma nova. Os espelhos onde olhou para si mesmo estavam localizados na rua. A quase forasteira ofereceu a eles espelhos, e também personas admiráveis para lançarem sobre os espelhos. Assim, eles se enxergavam bonitos. Bem mais bonitos do que na verdade eram.

Entre as coisas nossas, há as ruins, que escondemos, envergonhados. Há pessoas que apenas esperam um pequeno espelho para projerarem essa maldade. Pensam que assim só elas verão a imagem refletida. Querem um pequeno espelho, ou talvez um grande, mas trancado em casa, que seja um escravo das projeções de sua dona, e não as revele a mais ninguém. Um espelho, lógico, que escravize aquele que só é o que a superfície lisa do que o espelho reflete, e que é tão profundo quanto ele.

Os moradores do local logo retomaram às acusações às escondidas, contra a mulher. Voltaram para aquilo que, se precisava ser feito escondido, era algo indigno de ser olhado, e que de forma alguma causava admiração.

Os moradores iam bem vestidos em ocasiões especiais. Nelas, eles eram bonitos. Essencialmente eles eram feios, não havia nada bonito para ser visto naquela cidade. Chamaram a forasteira de amaldiçoada. Amaldiçoada, porém, era a cidade mesma, que fazia com que todos que nela permanecessem fossem feios.

O rapaz que parecia naturalmente belo, encantou-se com a forasteira, e propôs saírem dali. Ele morreu, em uma brincadeira que fizera para a amada
Segundo a mãe dela, ele queria provar a ela que o amor dele era maior do que o ódio daquelas pessoas todas. Morreu fazendo algo infantil, e querendo mostrar o amor. Uma morte que não teve nada a ver com medo ou dor. Morreu como uma boa criança, excessiva e atuante às claras.

*Leitura do filme “A Vingança está na Moda”, de Jocelyn Moorhouse (2015).

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