A ciência de Aristóteles (roteiro para uma apresentação)

Em sua filosofia, Platão não negou sua própria cultura mitológica. O Mundo das Ideias é um lugar real, porém divino, por onde os deuses seguem num cortejo liderado por Zeus, conforme está no diálogo Fedro. As Ideias, bem como o lugar onde elas estão, são eternos e de visitação exclusiva, dentre as almas humanas, das almas dos filósofos.

Aristóteles trouxe a essência das coisas para junto delas mesmas, as coisas particulares das quais aquelas são formas. Como diz Ghiraldelli Jr., as Formas platônicas passaram a ser formas. Aristóteles considerava que o conhecimento acerca da verdade das coisas era passível de ser atingido a partir do trabalho sucessivo de investigadores. Na Metafísica, inaugurou a história da filosofia, sem dúvida a partir de objetivos e concepções particulares da sua filosofia. O conhecimento era algo acumulado pelos pesquisadores, e não um saber restrito a uma elite intelectual.

Com a recensão dos feitos dos filósofos anteriores a ele, Aristóteles acreditou ter encontrado os limites das investigações e a falta de clareza de cada um deles: os filósofos da physis, ao explicar algo da realidade, consideravam apenas o elemento material do qual eram feitas, deixando de explicar o que causa o fazer delas; Anaxágoras, por sua vez, considera um princípio de agregação e um de desagregação, para o movimento das coisas; os pitagóricos estabelecem um princípio supra sensível para a ordenação da realidade sensível; e Platão estabelece definitivamente o saber sobre a essência das coisas. A finalidade, o bem a que as coisas se dirigem, isto foi negligenciado pelos filósofos.

Segundo Reale, a causa material e formal (as duas juntas formam o sinolo) davam um conhecimento estático da coisa. O conhecimento do movimento dela era dado pelas causas eficientes e finais.

O homem, assim como os outros animais, tem impressões e lembranças sensíveis do mundo mas, diferentemente deles, ele é capaz de arte e raciocínio. Um marceneiro conhece bem as cadeiras feitas por ele mesmo, e sabe consertá-las como nenhum outro. Mas o saber dele é preso à experiência particular de ter feito aquelas cadeiras. Ele sabe o material de que são feitas e sabe fazê-las, mas terá ele a capacidade de abstração de definir a essência da cadeira, ou ainda, de dizer o bem a que deve cumprir?

Aquele que tem a experiência dos particulares tem um saber restrito. Só aquele que conhece as causas estáticas (material e formal) e as causas do movimento do ser (eficiente e final) apreende o universal dos objetos daquela classe. A sabedoria é o conhecimento das causas das coisas, portanto, do fundamento da realidade. De acordo com Ghiraldelli Jr., Aristóteles perguntava “por que f é como é?”, “o que o faz ser assim?” (a pergunta socrática, respondida por Platão, era outra, “o que é f?”, pedindo antes uma definição).

A pergunta de Aristóteles era pelas causas, os princípios fundamentais. O conhecimento delas era a Ciência dos Primeiros Princípios.

Quem planta e colhe alimentos não faz a si mesmo esse tipo de pergunta quanto a sua atividade: talvez ele saiba com o que trabalha, sementes, terra e ferramentas (causa material), mas não pensa claramente sobre os procedimentos que adota (causa formal), nem no destino que espera para os seus produtos (causa final), nem em si mesmo como o agente daquilo (causa eficiente). No entanto, é difícil de admitir que ele não tenha ao menos alguns pensamentos sobre essas coisas. O mesmo se pode dizer sobre um legislador e o seu contexto de trabalho, por exemplo.

Aristóteles toma estas questões como as que merecem investigação por necessidade espiritual, não por necessidade de alimentação (que seria suprida pelo plantio de alimentos, e de cujo encargo está com as ciências produtivas), nem por necessidade de aperfeiçoamento de uma lei (que é para o legislador, estudado pelas ciências práticas).

A Ciência dos Primeiros Princípios parte das experiências particulares dos homens, mas vai para a essência e a finalidade que todos os particulares de uma classe têm em comum. O que se busca é o Ser enquanto Ser, em sua totalidade.

Da mesma forma com que o universal se desdobra em particulares, o conhecimento acerca dele é superior ao conhecimento do Ser em suas contingências. E também mais instrutivo do que este, pois, à medida em que o ser se particulariza, ele perde amplitude.

A exatidão é mais uma característica desta ciência, pois ela não necessita de uma outra ciência para abordar seu objeto: a matemática é mais exata do que a física, pois esta tem uma forte dependência empírica.

A Ciência dos Primeiros Princípios é estudada por interesse nela mesma, não com relação às necessidades materiais e produtivas, nem em comparação com as ciências que tratam delas. Ela estuda o puro ser, estuda o que é separado do comum. Seu objeto e, portanto, seu objeto, são divinos. Mas, se em Platão o alcance deste divino era para os dotados de almas filosóficas, em Aristóteles tem início um caminho de rigor científico que se desdobrará em Bacon e em Descartes, e resultará no fazer do que modernamente se chama ciência. Há aí uma marca democratizante do conhecimento.

 

Referências

Aristóteles. Metafísica. Edipro.

Ghiraldelli Jr., Paulo. A aventura da filosofia. Editora Manole.

Kenny, Anthony. Uma nova história da filosofia ocidental. Editora Loyola.

Reale, Giovani. História da filosofia, vol. I. Editora Paulus.

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