A democracia e o fim das metanarrativas (ou quase)

Uma das características do mundo contemporâneo é que as narrativas superam as metanarrativas. Isso quer dizer que nenhuma teoria tem a capacidade de convencer a todos. Venceu o perspectivismo, e com isso a criação de novas narrativas para os mesmos eventos substituiu o desenvolvimento de uma única narrativa que pretenda “representar a realidade tal como ela é”.

É por isso que parte da filosofia estadunidense, com Rorty à frente, coloca a democracia como talvez a única reivindicação que todos deveriam fazer: na democracia há a constante conversação de forma livre, condição essencial para que novas narrativas possam ser criadas. É isso que garante o nosso avanço como sociedade.

Infelizmente, no Brasil, a democracia é frequentemente defendida com um fundo autoritário: defender a democracia é defender a minha narrativa como se ela fosse uma metanarrativa, é sobrepor a minha perspectiva sobre todas as outras perspectivas. Não existe o interesse de defender a democracia sem o apelo para uma Verdade (com V maiúsculo).

Esse é o ponto que mais incomoda na suposta defesa da democracia “contra o golpe”. Porque ao dividir o país entre “golpistas” e “não golpistas” o lado dos “não golpistas” está livre de dar atenção para qualquer outra narrativa que contrarie a suposta “verdade”. Como disse a própria Dilma: “não importa se é pedreiro ou dentista, se defende o impeachment, é golpista”. Ora, existe algo mais autoritário do que simplesmente ignorar as razões individuais que levam um pedreiro ou um dentista a defender o impedimento de uma presidente?

O Brasil produziu filósofos que não seguiram essa corrente autoritária de pensamento, como Paulo Freire, Weffort, etc. Estes, infelizmente, são ignorados ou lidos de forma dogmática. Nós sabemos que é difícil, para quem aprendeu com a ditadura a pensar de forma autoritária, ler um Paulo Freire e entender quando ele diz que não gostaria de ser seguido. Mas é um exercício que uma hora ou outra, passará a ser feito pelas próximas gerações.

Essa esquerda que defende a democracia de forma antidemocrática deve ser domesticada. E é para isso que serve a nossa democracia. Não podemos esconder nossas narrativas que relativizam teses que pretendem “representar a realidade” por medo de patrulhas ideológicas. Defender a democracia é antes defender a liberdade do que defender a verdade.

Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestrando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Estudante de especialização em Educação, com ênfase em Ensino de Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Editor adjunto da revista Redescrições. Membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society. Finalista do Prêmio JOTA/Inac de Combate à Corrupção do ano de 2016. Participou da organização do XIV Congresso Internacional da Société Internationale pour l’Étude de la Philosophie Médiévale (SIEPM). Atua nas seguintes linhas de pesquisa: Tolerância no Liberalismo Moderno; Liberdade de Expressão; Pluralismo de Valores; Liberalismo; Socialismo; Social-Democracia; Filosofia Política e Social; Filosofia Moderna.

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2 thoughts on “A democracia e o fim das metanarrativas (ou quase)

  1. O caso do impeachment é um ótimo exemplo! Todo mundo sabe que o processo de impeachment tal como temos no Brasil, é, no que se refere a sua natureza em lei, um instituto aberto a diversas interpretações. E quanto ao tal crime de responsabilidade, a falta de clareza do que o define e sua natureza política então, ganha esse mesmo aspecto. Bem, diante disso, todo mundo sabe que uma interpretação que leve em conta a forma como ela vem sendo realizada é, no mínimo, aceitável. Ora, não é isso que que vem ocorrendo no impeachment da Dilma? Mas a esquerda, fala em golpe. É que justiça, pensam eles, é a Justiça de Deus.

  2. Não nos orgulhamos de nós mesmos. Mas temos uma avidez por reconhecimento. Não nos vemos como bons e simplesmente tendo que oferecer isso. Para o que damos, queremos algo em troca. Nossas opiniões são dadas assim. É por isso que, ao invés de explicar o próprio ponto, ou desistir do tonto, queremos ou fagocitá-lo ou tememos que ele nos fagocite. Isso é um absolutismo.

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