A discussão e o conceito

Atualmente vimos uma série de intelectuais pronto para discutirem  quaisquer assuntos. E, muitas vezes, fazendo arranjo de técnicas de oratória e, em alguns casos, com pouco êxito. Mas não seria a discussão o objeto próprio da filosofia?

Sócrates é o patrono da filosofia. De Platão à Kierkegaard,  todos os filósofos se debruçaram sobre Sócrates e sua filosofia. E é dele também que vem a melhor distinção entre conceito e a discussão.

Vale ressaltar que esta distinção socrática é metodológica. Pois, de um lado, tínhamos Sócrates e, de outro , tínhamos os Sofistas.

Quando Sócrates indagava sobre a justiça, ele tinha como alvo o conceito de justiça. Assim o interlocutor socrático não é visto como um oponente a ser derrotado, mas, sim, como outro grego, que juntos, investigam e buscam o conceito. E, em várias obras, o objetivo não atingia diretamente o alvo. Logo, a investigação, através do diálogo com o interlocutor,  resultava em uma aporia. Todavia, nem mesmo aqui há um despropósito do método socrático; pois se não conseguimos definir “o que é”,  conceito, conseguimos eliminar os obstáculos que outrora tínhamos, que era os exemplos dos casos de justiça que nublavam o conceito em si da justiça.  Desta mesma forma acontecia com a busca de outros conceitos, por exemplo, o belo…

A distinção metodológica de Sócrates está no fato deste ter em mente, como objetivo, a busca do conceito que, juntamente com o rigor de provas – refutação -, colocou-o em constante investigação. Ora, se o conceito não foi atingido, a investigação deve continuar. Portanto, o diálogo deve continuar, sendo este parte do caminho para atingir o alvo. E o interlocutor socrático, por ora meu colega de investigação, não teve sucesso em apresentar o conceito, pois não passou na prova da refutação.

Já no caso dos Sofistas  o alvo era a própria discussão. Portanto, aqui, tomo meu interlocutor como adversário e vencer o discurso é o objetivo – eis a definição da erística. Perde-se, então, o conceito como alvo do diálogo. E este deixa de ter tal característica e torna-se uma discussão ou debate.  Em suma, meu interlocutor deixa de ser outro grego investigando  e é somente um adversário; e esquece-se o objetivo da investigação, o conceito, tendo apenas, como alvo, a vitória na argumentação.

Portanto, a filosofia é uma construção de conceitos. Peirce nos traz um exemplo ao definir o conceito de signo:

Há três tipos de interesse que podemos ter em uma coisa. Em primeiro lugar, podemos ter um interesse primário na coisa ela própria. Em segundo lugar, podemos ter um interesse na coisa devido a sua reação com outras coisas. E, em terceiro lugar, podemos ter um interesse mediatório na coisa, na medida em que traz à mente uma ideia sobre a coisa. Ao fazer isso, vem a ser um signo [sign] ou representação[1].

No âmbito do texto filosófico a construção de conceito é o objetivo central e final. E, secundariamente,  coloco sob prova, refutação, a hipótese de conceito posta pelo meu interlocutor.

Mas se definirmos a filosofia apenas como um instrumento para o debate e a discussão, estamos perdidos no nosso próprio método. Usando uma terminologia próxima de Heidegger: a filosofia definida nestes termos é o esquecimento do conceito.

[1] PEIRCE. O que é um signo?. Retirado do livro textos básicos de linguagem, do Danilo Marcondes (p.73).

Professor de filosofia e membro do CEFA.
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