A escola sem igreja é um absurdo

Escola sem partido é um absurdo. Escola sem igreja é outra tolice.

Vivemos a cultura não do “com”, mas do “sem”. Nos início dos anos 60 tiraram da escola o grego e o latim. Depois, mais tarde, tiraram tudo com a tal profissionalização. Mais tarde ainda tiraram o inglês, o francês, a educação artística, e por um certo tempo até a educação física. Nesse tempo todo, foram também tirando das mãos do professor o salário. A cultura da “escola sem” continua. Não há parada. Enquanto não tirarem tudo da escola, enquanto não enterrarem a escola e transformarem os brasileiros naquilo que o ignorante quer, ou seja, uma legião de gênios autodidatas, não vão sossegar. A regra do “sem” é a regra do burro. E a burrice existe.

Quem faz isso? Os governos, claro, mas não sem apoio da sociedade. E nisso, direita e esquerda se igualam. Todo mundo quer tirar alguma coisa. Dilma começou o governo dizendo que queria enxugar o ensino médio, que não via razão para manter sociologia e filosofia na escola. Houve um ministro do Lula, o Cristóvam Buarque, que chegou a dizer que um exame nacional para alunos deveria cobrar só português e matemática. Antes dele, Paulo Renato, do FHC, já dizia coisa semelhante. Haddad então, nem se fale, adora o “com” quando se tratava de fazer a propaganda do MEC ficar mais cara que as próprias obras.

Nenhum lugar do mundo moderno, a não ser na política do Eixo Nazi-fascista e na URSS e satélites, a escola foi controlada a ponto de se negar cultura aos alunos. Várias escolas dos mórmons americanos, tidos como “fechados”, permite que alunos estudem e se aprofundem em bioética de um ponto de vista laico. Só no Brasil a indústria do “sem” vem proliferando. E quando aparece o “com”, sempre é no sentido de favorecer o “sem”.

O artigo de Demétrio Magnoli na Folha  faz parte da cultura do “sem”: tirem a Igreja. Mas como? O que se quer? O que isso significa? Vejam o trecho capcioso:

“Na democracia e na república laica, o compromisso essencial da escola não é com os chamados “valores da família”, mas com o direito dos alunos à cidadania. O alicerce de princípios da escola são os direitos humanos universais, inscritos na Declaração de 1948, que inspiram as constituições democráticas. A igualdade de direitos entre homens e mulheres, o respeito a diferentes orientações sexuais, o repúdio a preconceitos raciais e a proteção de minorias religiosas não devem ser descritos como “doutrinação ideológica” –e não são artigos negociáveis no balcão das “convicções dos pais”. (Folha, sábado, agosto 13, 2016)

Parece lindo, liberal, até libertário não? O final, então, é apoteótico. Mas, o que estamos de fato dizendo, quando colocamos sobre nossas cabeças a Declaração de 1948? Nada a não ser política, e muito bem partidária. E o que estamos dizendo ao falarmos de escola sem igreja se, ao mesmo tempo, temos de proteger minorias, inclusive religiosas? O problema do autor do texto aí é simples, e o que ele está falando sabem bem o que é: deixem que o meu partido fique na escola sem igreja e sem partido que eu inventei. Mais uma vez, surge por debaixo dos lençóis o que autor com Magnoli quer: o meu partido e a minha igreja. Ou seja, Magnoli funda seu partido e sua igreja, o da “república laica”, como o que é universal (aquele República dele, que tem ódio às cotas étnicas!). Todos nós sabemos, após Aristóteles, que o mecanismo de tornar algo particular como universal, por um “golpe de mão”, é erro lógico. Depois de Marx, isso passou a ser chamado de ideologia.

A escola não tem que cercear nada. Todo brasileiro que nela entrar entra com tudo: crenças de todo tipo. Todo professor que nela entrar entra com tudo: crenças de todo tipo. Mas a escola é então o reino do “tudo pode”? A questão do ajuste entre a cultura de alunos e professores e a cultura escolar é o currículo e o conteúdo das matérias. Nesse caso, eu volto a insistir, não são os ideias da Declaração de 1948 que possuem legitimidade para dar a filosofia da educação vigente ou a pedagogia oficial. A escola é maior que isso.

A escola é o lugar de integração entre a cultura da  família e da sociedade com a cultura que efetivamente é universal. Qual a cultura universal legítima? Qual a cultura que, sem ser neutra, pode aspirar a uma objetividade que se aproxima da neutralidade como um ideal? Todos nós, os intelectuais do Ocidente moderno que realmente estudaram filosofia, temos um certo consenso sobre isso: a cultura escolar é boa quando baseada nos clássicos. Os clássicos são, por definição, o que a intelectualidade dos povos sente que fez a passagem entre o datado para o não-datado mantendo o datado, o que fez a passagem do particular para o universal mantendo o particular. Por isso falamos que as leis de Newton podem ser ensinadas em Tóquio de 1920 e em São Paulo de 2016, por isso falamos que a Ilíada e a Odisseia podem ser ensinadas em Moscou de 1900 e em Buenos Aires de 2016. Há para todos algo que nos faz dizer, ao se deparar com tais conteúdos: “isso mexe comigo, tem uma validade para minha vida, me vejo nisso!”

Claro que há clássicos já consagrados e há conteúdos que aspiram à condição de clássico. Regrar uma nação pela forma de república laica segundo a carta de Direitos Humanos de 1948 é alguma coisa de ordem clássica? Não creio. É algo de uma regra particular, que gostamos muito no Ocidente e nos países ocidentalizados, mas não é alguma coisa que pode ser o conteúdo de uma escola pública e muito menos uma filosofia da educação posta acima de tudo, como se fosse lei do cosmos. Escolhemos os nossos clássicos por uma característica interna deles, e precisamos pensar sobre cada conteúdo para acharmos que o eleito de fato ganhou a condição de clássico. A Declaração de 1948 não nos dá regra para a direção da escola, dá apenas indicações. Vejamos: se quero proteger minorias religiosas que não cristãs, não posso então ensinar a Bíblia na escola, sabendo que a Bíblia é o conjunto de narrativas da religião predominante no Ocidente, um lado de nossa cultura que, somado com a Ilíada e a Odisseia, diz de nossa mentalidade? Seria ridículo querer ensinar religião dando para os mitos indígenas brasileiros o mesmo número de horas de ensino, e a mesma importância, que damos para o número de horas para ensinar a Bíblia e a mesma importância que damos para o cristianismo. Isso não é traçar um juízo de valor simplório e traiçoeiro para com não-cristãos, mas é traçar um limite claro entre o que é hegemônico entre nossos conteúdos a partir do que é clássico e nos toca e entre o que nos é básico, mas nos toca menos. E como que é obtida essa hegemonia para a construção do currículo? Ora, com bom senso, com estudo, com percepção do que queremos que as crianças saibam para manter ou revolucionar um lugar (e, claro, também no meio dessa disputa epistemológica, uma disputa política). Posso enfiar cultura-afro na escola brasileira, ou cultura indígena, mas não posso, ao fazer isso, deixar os alunos ignorantes na cultura que se impôs à cultura-afro e à cultura indígena, mesmo que essa imposição tenha sido à força. Aliás, historiar essa força, mas sem criar o vitimismo, também faz parte do básico.

O debate sobre o que ensinar é um debate aberto. E é também uma construção coletiva. Portanto, não é um debate da escola “sem”, mas da escola “com”. Os alunos não podem mudar seus currículos todo ano, mas podem participar da conversação da intelectualidade que busca traçar um melhor currículo para a escola fundamental e média a cada época. Agora, se todos estão imbuídos da ideia de que o menos é que é mais, como se está agora, aí realmente não vamos emparelhar com ninguém no mundo Ocidental. Os outros países estão menos inclinados que nós a achar que escola “sem” conteúdo é a melhor.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 14/08/2016

Filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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One thought on “A escola sem igreja é um absurdo

  1. Há muitas propostas de se ensinar mais cultura afro que cultura greco-romana e hebraica. Deixa-se de dar às crianças a base da nossa cultura. A cultura afro poderia ser um ensino a mais, para que os diferentes se reconheçam. Isso, em meio ao aprendizado das nossas bases culturais maiores. Essas bases firmaram-se com violência? Bem, nem todos os aspectos da nossa formação implicaram em violência. Saber situar o que é universal, e que dá bases maiores, do que é mais particular, e dá bases mais particulares, é importante. E, inclusive, ajuda a situar a historia das coisas. Mas o que se tem afirmado é uma lógica da violencia-vitimização, para se sustentar a troca de uma “ditadura” por uma ditadura do oposto.

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