A escuta opaca

Um aluno negro numa escola de brancos é um aluno entre outros alunos. Você tem um amigo japonês, mas primordialmente ele é seu amigo. O tom de pele e os traços não são esquecidos, mas, numa relação, não são tratados como pertencentes aos de uma minoria. Com o amigo você quer falar e escutar, ou seja, participar do mesmo espaço acústico.

O Miserável, criatura de Dr Victor Frankenstein passa meses escondido em uma toca, próxima à janela de uma família. Ele os ouve falar, sem entender. Concentra-se para aprender aquela linguagem, e aos poucos vai conseguindo. Mas, ao ver a própria imagem refletida, não vê o que vê nos outros. Vê deformidade.

Ele ouve, na família, uma história do filho, em que ele ajudou o pai de sua amada a fugir da prisão e, em retorno, o homem proíbe o casamento deles. Uma história de injustiça. O Miserável vê que o homem é tanto capaz de aproximar-se de Deus quanto do demônio. Então ele, que, em suas feições e proporções, não era um homem, em contato com as pessoas só conheceria destrato e violência.

Os membros daquela família o protegiam, sem conhecê-lo. Eram a sua esfera sonora primordial (ele não veio de um útero), seus companheiros. Mas o sorriso que trocavam um com o outro jamais seria para ele. Ele sempre estaria fora, seria um externo, tangenciando as esferas, as famílias, pelas janelas.

Uma sala de aula é um campo de som, em que há disputas e acomodações. Na maior parte do tempo, há bem-estar. Para garantir o bem-estar é que se mantém contatos mais frequentes com um colega ou dois. A visão é um sentido secundário. Olha-se para a boca do colega para ouví-lo melhor. Não viramos o ouvido para quem nos fala, pois o visual é importante para a troca de sons.

Quando o visual fica mais importante do que o sonoro, exclui-se o, na verdade doce, Miserável. Aí o outro vira o negro, o isso ou o aquilo. Passa a ser observado e descrito. O eu vira o instaurador de transparências.

Byung Chul Han diz que a sociedade da transparência é a da completa exposição. E, como somos nós mesmos que nos cobramos performance, e não os outros que cobram de nós, procuramos ser transparentes para quem nos vê. O outro tem um eu se se expõe sem pudor, se não tem mistério. Que ele se pornografize, para que eu saiba se ele pode ficar aqui! Que o Miserável exponha suas cicatrizes e suas intenções. Não se dá o tempo de escutá-lo.

Escutar cria uma distância-proximidade. A visão cria distância para a qual se busca superação com a instauração da transparência. À medida em que o olho do outro me vaza, o que eu sou, se não esse olho? O que eu sou, se não a imagem que o outro reflete de mim, num narcísico jogo de espelhos?

Miserável de quem tem que se devassar.

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