A Filosofia Não Consola (ou Sócrates Foi Condenado À Morte)

Filosofia não é auto-ajuda. Nunca confunda. A filosofia não existe para ajudar alguém a alcançar algo. Ajudar seria apresentar uma cartilha, uma receita, uma fórmula para que o leitor trilhasse o caminho proposto por algum filósofo e, assim, atingisse seu objetivo tão almejado. Não, a filosofia não serve para isso. Se você lê filosofia dessa forma, sinto em dizer, mas você lê de forma equivocada. E mais: se existir alguém que se apresente como filósofo e diga que escreve textos de auto-ajuda… fuja! Ou simplesmente ignore. Certamente esse tal filósofo charlatão está precisando de ajuda.

Este texto que você está lendo, por exemplo, não se propõe a ajudar você a nada. O texto presente tem como objetivo esclarecer de maneira bastante breve o que não é filosofia. Agora, se você utilizar a sabedoria obtida através desta leitura para a sua vida, desviando de qualquer charlatão que se auto-intitule filósofo, isso já é algo que vai de você. Não estou lhe oferecendo uma receita de primeiros passos para detectar um falso filósofo e uma falsa filosofia. Longe de mim!

A filosofia é o desassossego. Se fosse um prato de comida, seria amargo. Ou: exageradamente doce ou exageradamente salgado. O caso é que a filosofia não seria um prato facilmente de ser saboreado. Ela, em sua essência, incomoda. Ela incomodou tanto na Grécia antiga que, não suportando a carga áspera de realidade, o povo de Atenas condenou à morte seu representante mais fiel, Sócrates. Não conseguiram engolir Sócrates, tiveram que matá-lo. Sócrates encarnou a filosofia, incorporou-a, e pagou um preço caro: poderiam ter queimado seus livros em praça pública, mas ele não escreveu nada, ele viveu a filosofia, portanto teve que ser ele mesmo calado.

Sócrates nasceu no século V a.C.. Sobre filosofia não escreveu nada, pelo menos nada que saibamos até os dias de hoje. Segundo o que sabemos a partir de fontes como o historiador Xenofonte e Platão, que foi seu estudante admirador mais brilhante, Sócrates preferia praticar a dialética, que é o diálogo filosófico, a ter que escrever tratados que tivessem por tema assuntos filosóficos, pois acreditava que a filosofia é um diálogo vivo, vibrante, olho no olho, perguntas e respostas, respostas e perguntas, afirmações, negações, entonações, contradições, reformulações, opiniões, opiniões, choques de opiniões, idéias, idéias, idéias, nascimento do conhecimento. Isso seria muito mais instigante.

Apesar de ter vários seguidores, que eram seus eternos admiradores, Sócrates nunca foi professor, mestre, guru, pai de santo, papa, pastor, de nenhuma seita e de nenhuma igreja e de ninguém. Ele nunca formou grupo de estudos, não criou nenhuma escola, como o faziam os primeiros filósofos que se interessavam pela origem do universo (os chamados pré-socráticos), nem nunca fundou Universidade, como fizeram Platão (Academia de Atenas) e Aristóteles (Liceu).

Sócrates não tinha o menor interesse em ser tutor de alguém. Ele praticava a sabedoria de que cada um deve ser seu próprio mestre. A lição que nos deixou é a de que busquemos por nós mesmos a autonomia. Ser livre é difícil.

Sócrates nunca disse que a filosofia é o ato de fazer escolha pelos outros, mas sim que cada um de nós é responsável – pelo menos deveria ser o responsável – pelos caminhos que enveredamos. A auto-ajuda é a deturpação da filosofia, é transformar a filosofia em mera mercadoria, massificando o que entendemos como filosofia, empobrecendo-a. Não quero dizer com isto que a filosofia não deve ser feita para a massa, para o povão. O que quero dizer é que, muitas vezes, a massa não está preparada para a filosofia, pois não está capacitada para tomar suas próprias decisões.

A filosofia é amarga porque traz consigo verdades contundentes, verdades intragáveis, verdades venenosas que exigem de nós preparação para sermos donos de nós mesmos. A filosofia nos cobra um preço. Nem todos estão dispostos a pagá-lo. Sócrates pagou com a própria vida, foi condenado a tomar cicuta (veneno extraído da planta de mesmo nome).

Formado em Filosofia pela Universidade Federal do Pará (UFPa). Atua como Professor de Filosofia no Ensino Médio Básico, escrevendo também Contos, Poesia e Ensaios sobre diversos temas dentro da Arte e da Filosofia. Publicou em Jornais: conto, do gênero realismo fantástico; e texto de crítica literária. Publica ensaios sobre Filosofia e Cultura na internet.

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