A filosofia observa nosso prazer e nossas cabeçadas

O amor é lindo. Minha mulher é linda. Fiz uma poesia linda, para presenteá-la. Acompanhada dos melhores bombons. Fomos a um restaurante bem gostoso, depois assistimos a um filme que nos fez ficar agarradinhos. Estou falando do amor, ou da minha mulher e das coisas que eu e ela fizemos?

Não é fácil falar do amor. No Banquete, Sócrates percebeu que o discurso de Agatão, poeta premiado, quisera tratar do amor, mas antes fez o elogio do amado. Atualmente, em nossas músicas, vemos bastante o elogio da beleza da amada, do prazer com o seu carinho, etc.

“Amor é um fogo que arde sem se ver. É ferida que dói, e não se sente. É um contentamento descontente. É dor que desatina sem doer.”, de Camões, não de Renato Russo, fala especificamente do amor. E perceba que não exatamente o elogiando.

Agatão havia dito que Eros é o mais jovem dos deuses, e delicado, de forma fluida, até, de modo a que possa envolver-nos. De pele semelhante à das flores, pois se afina a quem tem viço e beleza, e se desafina com quem tem a pele enrugada. Este é um elogio ao amor, um louvor.

Agatão sente o prazer amoroso e quer expressar isto. É o agradecimento, então, por algo experimentado, e os votos de que novamente ocorram com ele. As músicas tristes, sobre o amor, falam da dor da perda do prazer.

Agora me ocorre essa música do José Augusto: “Eu já tentei, fiz de tudo pra te esquecer. Eu até encontrei prazer, mas ninguém faz como você. Quanta ilusão, ir pra cama sem emoção, se o vazio que vem depois, só me faz lembrar de nós dois.” Não é uma análise sobre o amor.

A intervenção de Sócrates traçou uma aparência de feio e enrugado, para o amor. Isso porque ele é filho da falta de recursos com a astúcia, Penia e Poros. Pense se o amor realmente não é a sensação de total desespero, falta de tudo, se se está longe de quem se ama? E se a pessoa que passa por isso não é a maior estrategista para se conseguir o que quer, no caso, o amado?

O regozijo do amor dura momentos. Amar alguém é, predominantemente, sentir uma grande falta e bolar mil maneiras de ter novamente o encontro prazeroso com o outro. O amor é destituído de beleza. Ele tem de ser assim, do contrário, se fosse belo, não sentiria falta e desejo por aquilo que já possui. Este é o argumento de Sócrates.

Poros e Penia fizeram Eros na festa de comemoração do nascimento de Afrodite. Eros tem uma ligação com esta deusa. Penia, que a tudo assistia da soleira da porta, por não ter o suficiente para estar junto aos deuses, aproveitou um momento de embriaguez de Poros para furtivamente entrar e deitar-se com ele. Ela é a miséria, o rebaixamento total diante das excelências dos deuses, da beleza de Afrodite.

O amante, sem a sua amada, é esse miserável que está na letra de José Augusto. Ele até faz letras de música, para recuperar sua amada! Sócrates bem lembra que aquele tocado pelo amor faz criações comparáveis a quem é possuído pelas musas.

Longe da sua amada, o amante é um obcecado pela falta. Fica monotemático, e não consegue ver anda além. Quando está satisfeito, no entanto, ele levanta-se da cama e vai fazer um bolo, escreve um texto, sai para trabalhar. Pensa que aquela mulher o ama, e isso anima seus passos. A fantasia, imaginação, naquele momento está com ele, permitindo que ele veja outras coisas além do amor que sente.

Sócrates colocou-se de lado, em relação a este homem ora insatisfeito-ora satisfeito. Quis dizer a verdade, do jeito dele. A verdade não combina com todas as musicas e enredos que passam em nossa cabeça, pois eles são 8 ou 80, ou amam estar amando ou odeiam estar amando.

Os homens têm pouco discernimento do que vivem com o amor (embora desconfiem, pois não há apaixonado que viva na tranquilidade). Sócrates consegue analisar isto, pois escuta seu daimon, e também às mulheres. Mulheres sempre têm uma posição privilegiada para observar as desventuras do homem que move o mundo e pira, por elas.

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