A filosofia tem alguma coisa a ver com a política?

É correto acreditar que o pensamento político pode ter algo a ver com a filosofia? No que a filosofia contribui para a discussão política?

Em meio à crise política, a maioria das pessoas têm dificuldades em compreender o que é o discurso filosófico. Talvez tenham dificuldades em compreender a diferença entre geopolítica, ciência política e filosofia política e por isso, coloquem tudo no mesmo saco. Ao fazerem isso, não distinguem o que é o simples ato de falar de política no cotidiano dos atos técnicos que cada área possui para falar sobre as problemáticas que envolvem a política.

Como sou da área filosófica, vou dizer apenas que a geopolítica e a ciência política são quase que puramente empíricas. É por isso que o discurso dessas duas ciências, em muitos casos, não é muito diferente do discurso da política no senso comum. A filosofia política, por outro lado, não pode permanecer no puramente empírico, na mera “análise de conjunturas” que quase sempre acaba caindo em uma resposta ideológica, a priori, que já estava engatilhada desde o início da “análise”.

A filosofia política se afasta do empírico, mas nem por isso dá uma guinada metafísica. Não há absoluto, não há posicionamento a priori e portanto, cada caso é analisado de forma particular. O rompimento com o empírico está na heterotopia e na utopia, e não é apenas um rompimento com o empírico, mas também um rompimento com a maioria das descrições aceitas.

A heterotopia é um termo usado por Foucault, grosso modo, para falar dos locais que escapam das regras sociais do cotidiano. Locais onde há um relaxamento da regra, onde a vida pode ser tocada por caminhos diferentes, onde pode-se escapar do que é socialmente aceito. O filósofo alemão Peter Sloterdijk utilizou o termo foucaultiano para descrever a Academia de Platão, a instituição em que pessoas puramente interessadas em filosofia se reuniam para conversar sobre qualquer tema filosófico que desse na telha. O pensamento filosófico, desde então, se separou da política.

É da heterotopia que se chega até a utopia. A utopia é o que não pode ser normativo, o que não pode ser realizado, mas que serve de referência para identificarmos os problemas do presente que precisamos resolver. Quem lê uma utopia de forma normativa, querendo os “passos” para “alcançar” a “meta”, não sabe ler filosofia. Quem critica o pensamento utópico por ele ser irrealizável não nasceu para a filosofia.

A utopia de Platão da cidade justa foi e é base para identificarmos problemas da nossa sociedade (lembrando que o termo “justiça” de Platão nada tinha a ver com o que entendemos hoje por “justiça social” ou mesmo “justiça jurídica”). A República de Platão está em várias áreas de estudo e mesmo assim, ainda é uma utopia.

É preciso ter isso em mente quando se lê um texto filosófico. O filósofo só é filósofo quando é um maldito traidor, subversivo, utópico, lunático ou qualquer outro adjetivo atribuído ao seu modo independente de pensar. O filósofo não se alinha a posições políticas a priori; não abraça atitudes do político “menos pior”; não está interessado em ter seguidores, capachos ou militantes; não se importa com sensações de pertencimento; não consegue se alinhar às palavras de ordem predominantes; não suporta a ideia de defender o status quo, seja qual for a situação política, se este for injusto.

O pensamento filosófico vai da heterotopia para a utopia. Ser filósofo é estar à margem da sociedade. Ser filósofo é ter amigos e não “companheiros” ou “aliados”. A utilidade da filosofia está na sua inutilidade. Por isso, pode xingar e espancar a vontade quem se preocupa com o rigor filosófico: isso já aconteceu outras vezes na história e sempre serve de indício para mostrar que a filosofia está no caminho certo.

Dito tudo isso, espero que aqueles que ainda não entenderam passem a entender o nível de preocupação (que é zero) que eu tenho com o que disse há anos, meses ou horas atrás sobre política — mudo tantas vezes de ideia, que já tem gente que nem sabe mais em qual categoria me encaixar. Quem ainda não entendeu pode voltar para a geopolítica básica de todos os dias.

Acadêmico de Filosofia pela PUCRS. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Pesquisador colaborador do CEFA. Editor adjunto da revista Redescrições, do GT Pragmatismo e Filosofia Americana da ANPOF. Também é membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society.
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3 thoughts on “A filosofia tem alguma coisa a ver com a política?

  1. O senso comum é informado por um paradigma científico. Mas também é informado por outros saberes. A ciência vive querendo dizer ao senso comum algo diferente desses outros saberes. Nisso, ela busca reforçar, junto ao senso comum, o seu saber próprio. Para fazer isso, ela não só bate nesses outros saberes como também busca apresentar “novidades” na sua própria alçada. Bem, essas “novidades”, em teorias científicas “não revolucionárias”, representa, para a ciência, apenas um acréscimo a um paradigma anterior. Pode parecer uma grande novidade para o senso comum, visto que ele é diverso e se perde da ciência, mas para a própria ciência aquilo é a mesma coisa. Será que a ciência reconhece que o seu discurso permanece essencialmente o mesmo? Para reconhecer isso, sem dúvida ela teria que entrar para uma heterotopia: o olhar dela está por demais encantado por um objeto, ou por si mesma, objeto dela própria, que se sujeita à sua lógica, regras, etc, de tal modo que, para atingir os fundamentos do seu saber, e criticá-los, seria preciso que a ciência se afastasse daquele aparato todo.

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