A Globalização nos cegou: um adendo ao filósofo Byung-Chul Han

Durante muito tempo, achamos que o mundo jamais seria um só. Séculos atrás a dicotomia vigente era o Ocidente versus o Oriente. Depois, após as Grandes Navegações, passamos a dividir este planeta entre o Velho Mundo e o Novo Mundo. Aos poucos, China e Japão foram se integrando a vida ocidental, e a América acabou por se tornar referência dessa vida quando os americanos exportaram o American Way of Life, o estilo de vida americano. Era como se a promessa dos pais fundadores houvesse se cumprido, e a pátria da bandeira listrada deveria então ensinar ao mundo como se viver.

Nem tudo foram rosas na missão gloriosa do capitalismo americano. No meio do caminho não havia uma pedra, mas sim uma pedreira. A União Soviética mostrou que nem todo o mundo iria se subjugar ao estilo de vida americano. A Guerra Fria foi um embate não de armas, as de estilo de vidas, onde EUA e União Soviética tentavam impor aos demais países sua forma de viver e organizar sua sociedade.

O Muro de Berlim, a última das grandes barreiras simbólicas contemporâneas, possui muito mais significado do que a maioria das pessoas acredita. Sua derrubada representa algo além do que o triunfo capitalista, representa o triunfo da globalização. Com o fim do Muro de Berlim e a derrocada soviética, passamos a perceber o mundo como uma unidade sem barreiras, principalmente com o triunfo da internet e das demais tecnologias de informação e comunicação.

Dessa forma, a globalização acabou por fazer com que pensássemos que o mundo era constituído de uma unidade, seríamos todos humanos! Em resumo, ficamos cegos. Isso mesmo diante da Antropologia, uma ciência de dois séculos atrás, que descobriu a existência do “outro”, e nos martelou incansavelmente com a noção de “alteridade”. Tudo isso não adiantou!

A pandemia do coronavírus fez com que observássemos que as reações ao redor do mundo se deram de formas diferentes. A ação dos governos seguiu caminhos distintos. O Filósofo coreano Byung-Chul Han, em texto publicado recentemente no site El País (https://brasil.elpais.com/ideas/2020-03-22/o-coronavirus-de-hoje-e-o-mundo-de-amanha-segundo-o-filosofo-byung-chul-han.html), chamou a atenção para a diferença entre as reações dos países asiáticos com a dos países europeus. E foi além ao nos lembrar que por mais que possamos viver sob o status da globalização e a China já ser uma país capitalista – um capitalismo autoritário – suas bases culturais são diferentes das bases européias.

Em termos históricos, ao defender que os países asiáticos seriam mais “autoritários”, Byung-Chul Han está dizendo, de certa forma, que o Oriente não passou por todos os processos revolucionários que o Ocidente, tais como O Iluminismo e as Revoluções Francesa e Americana. Por mais que o capitalismo tenha forçado uma espécie de “ocidentalização”, as bases culturais permanecem sólidas nesses países. Por isso o Filósofo coreano chama a atenção para a fácil aceitação da identificação biométrica nas ruas dos países asiáticos, uma tecnologia que ainda sofre resistência na Europa e na América. Enquanto discutimos a privacidade diante do videomonitoramento, países como China e Coréia do Sul já controlam sua população 24 horas por dia com sofisticados sistemas de reconhecimento fácil.

Por mais globalizados que sejamos, a pandemia do coronavírus nos mostra, como elucidado por Byung-Chul Han, que os fundamentos culturais de uma sociedade dão diretrizes futuras do rumo que ela tomará. O Oriente tende a avançar muito mais que o Ocidente na aplicação das tecnologias no dia a dia de sua população. Neste momento, eles já estão na nossa frente.

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