A ideologia da mediocridade

Não consigo olhar para a Seleção Brasileira e não comparar ela com o que é o Brasil fora de campo. Não se trata de uma depreciação barata, daquelas que fazem por aí quando se diz que o Brasil é um país horrível de se morar — acho um país maravilhoso, apesar dos graves problemas. Mas há uma constatação que todos, em maior ou menor grau, devem concordar: a sociedade brasileira faz, há algum tempo, um grande pacto de mediocridade.

Basta olhar para a nossa prática no dia a dia, para o valor que damos para a ambição e para o mérito (no bom sentido dessas palavras), para a forma como buscamos resolver nossos problemas, para o modo como as coisas estão (des)organizadas. Todo mundo sabe que o médio é o bom, que o ruim é o médio e que o bom é o desnecessário.

A proposta de base curricular de FHC-Lula-Dilma-Temer que propõe que estudar menos é um avanço; os sistemas avaliativos dos estados, dos municípios e do MEC, que são baseados em notas e em produção acadêmica, justamente os dois fatores mais fáceis de se dissimular; as universidades que, nas monografias, dão notas altas para todos para “não desmotivar”; os empregos que só funcionam na base da indicação; os concursos carta marcada; os comerciantes que olham torto para os clientes; os industriários que aplaudem candidatos que querem prejudicar ainda mais os trabalhadores; os “progressistas”, os “liberais” e os “conservadores” que pensam que não existe nada além da ideologia da miséria (austeridade e salário baixo pra todo mundo ter um pouquinho para sobreviver). A lista é infindável.

Não queremos nada além do mediano. Nunca estamos dispostos a alcançar o melhor e, quando tentamos isso, como na Copa do Mundo, é sem organização, sem garra e como bebês chorões: parece que a sociedade esqueceu que os barbados milionários da Seleção são, na verdade, apenas uns nenéns. Não podemos criticar, mesmo quando perdemos para um time inferior porque jogamos de forma mediana do início ao fim: não pode denegrir o que é ruim. O ruim precisa ser respeitado em sua ruindade, senão ele se ofende. Se elogiarmos o ruim, talvez as coisas pareçam melhores.

Teve jogador dando risada enquanto perdia de 2×0. É assim que nós reagimos diante do fracasso. Porque, na verdade, não há fracasso no Brasil, já que também não há aspiração. Estamos próximos da sociedade que John Stuart Mill temia: aquela que não quer desenvolver nada de extraordinário e que, além disso, busca podar todas as formas de originalidade que surgem nos indivíduos.

A Seleção perdeu merecidamente. E nós vamos continuar perdendo toda vez que nos contentarmos com pouco e, internacionalmente, ficarmos nos últimos resultados do ranking do PISA, figurando entre os países com a educação mais fraca. Quando nossas falhas aparecerem, algum dirigente da CBF vai contratar outro técnico, algum especialista em educação vai reinventar a roda de algum jeito, algum político vai propor alguma lei nova e, no fim, nada vai mudar. Já estamos habituados.

Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestrando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Estudante de especialização em Educação, com ênfase em Ensino de Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Editor adjunto da revista Redescrições. Membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society. Finalista do Prêmio JOTA/Inac de Combate à Corrupção do ano de 2016. Participou da organização do XIV Congresso Internacional da Société Internationale pour l’Étude de la Philosophie Médiévale (SIEPM). Atua nas seguintes linhas de pesquisa: Tolerância no Liberalismo Moderno; Liberdade de Expressão; Pluralismo de Valores; Liberalismo; Socialismo; Social-Democracia; Filosofia Política e Social; Filosofia Moderna.

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5 thoughts on “A ideologia da mediocridade

  1. Bom. Perdemos muito mais agora.

    Como pode um filósofo fazer esse tipo de analogia? Francamente.

    1. Não sei o que você está fazendo aqui, mas acabou servindo de exemplo para o que escrevi. Muito obrigado!

  2. Belíssimo artigo e reflexão a respeito da sociedade brasileira atual. A respeito do 5° parágrafo, Qual seria a obra de Stuart Mill sobre uma sociedade estagnada?!

    1. Obrigado pela leitura, Rafael! A obra de Stuart Mill em que ele mais trata do tema é a “On Liberty”, mas no “Utilitarianism”, no “Considerations on Representative Government” e no “Essays on Politics and Society” essa discussão também aparece bastante.

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