A liberdade de cátedra não é para os fracos

O professor está dando uma aula sobre Karl Marx. O aluno grava o professor e posta o vídeo na internet, xingando-o e provando para sua rede que há “doutrinação comunista” nas escolas. Ele não quer ter aula sobre Marx, que é o momento para que o estudante entenda melhor o socialismo, o comunismo e o capitalismo, mas quer falar sobre o comunismo. Ele aprendeu com algum guru da internet que o comunismo existe. Não deve saber que o Muro de Berlim caiu.

O Enem faz uma questão sobre dialetos, usando como exemplo um dialeto utilizado pelos gays e travestis. O estudante chama o Enem de doutrinador. Ele não consegue responder a questão porque a palavra “travesti” faz seu cérebro parar. Ele não tem capacidade de simplesmente pensar no que define um dialeto e, então, responder corretamente. Erra a questão por ser burro e preconceituoso.

A liberdade de cátedra existe para que a Escola e a Universidade possam cumprir seus papéis. Ela é a liberdade que o professor tem de ensinar o que quiser do jeito que ele quiser e, ao mesmo tempo, de o aluno participar do processo de ensino tendo total abertura para participar da aula, escrever textos e fazer críticas. A lei dá total liberdade para que o aluno que não gosta de uma aula faça uma crítica ao professor, que tem total liberdade para respondê-la. Todo tema ensinado em aula pode ser discutido com liberdade absoluta entre os professores e os alunos. Por que, então, um projeto de jumento resolve gravar a aula para denunciar que o professor ou a professora estão passando “conteúdo de esquerda” quando ele pode falar diretamente com o professor?

Tudo o que um docente quer é a participação dos alunos. Um olhar com raiva, mas atento, vale mais do que a desatenção característica das escolas. Uma crítica a uma opinião do professor, um texto criticando um determinado conteúdo, são as atitudes que se espera em um ambiente de aprendizagem. Mas a direita (e, em muitos casos, a esquerda) preferem optar pela patrulha ideológica. Eu tenho nojo de abaixo-assinado para demitir professor. Tenho raiva de quem grava a fala de um professor ou professora para denunciar na internet, ou para denunciar, formalmente, a algum político desescolarizado. Usar de chantagem para impedir que um professor fale é um crime contra toda a educação. É um crime que só seria justamente punido com uma cadeirada bem dada na cara de um pivete desses, mas somos democráticos e precisamos ir à Justiça. E era justamente isso que eu ia dizer: vá à Justiça e denuncie o aluno que ameaçar a liberdade de cátedra. Vá por mim, essa gente é tão medrosa, medíocre e cretina que é capaz de se borrar só de ouvir a palavra “Justiça”. A Escola sem Partido sempre foi uma ameaça que nem chegou perto de existir como lei, porque é inconstitucional. Mas já existe como comportamento, lá onde os alunos conseguem intimidar os professores com linchamentos públicos e coisas do tipo.

Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestrando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Estudante de especialização em Educação, com ênfase em Ensino de Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Editor adjunto da revista Redescrições. Membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society. Finalista do Prêmio JOTA/Inac de Combate à Corrupção do ano de 2016. Participou da organização do XIV Congresso Internacional da Société Internationale pour l’Étude de la Philosophie Médiévale (SIEPM). Atua nas seguintes linhas de pesquisa: Tolerância no Liberalismo Moderno; Liberdade de Expressão; Pluralismo de Valores; Liberalismo; Socialismo; Social-Democracia; Filosofia Política e Social; Filosofia Moderna.

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