A pergunta inconveniente

Alguém te pergunta se você acredita em Deus. Eu nunca sei o que responder.

“Mas por que a pergunta?” Nunca perguntaram isso de volta, a quem perguntou primeiro. Por que as pessoas fazem isso, tirar a paz de alguém perguntando se ele acredita em Deus? E por que ninguém responde essa pergunta com uma outra, melhor?

Metafísica é a ideia de que há algo além da física. Não é necessário que se tome essa ideia como um fundamento para o físico, ou um ponto absoluto sobre o pensamento sobre o físico. No entanto, a metafísica platônica, a metafísica católica e a metafísica cartesiana serviram de apoio para o regramento e o pensamento sobre as coisas.

Paulo Ghiraldelli Jr., em um vídeo sobre Heidegger (https://z-p3-scontent.fsdu4-1.fna.fbcdn.net/v/t42.9040-29/10000000_1408668722518026_3930905557090697216_n.mp4?efg=eyJybHIiOjEwMzUsInJsYSI6NDA5NiwidmVuY29kZV90YWciOiJzZCJ9&oh=f94da4d5714f1793ac684e5cc91be934&oe=597192DF), explica que para este filósofo, o homem não livrou-se da crença em um ponto absoluto, quando o mundo tornou-se moderno. Para Max Weber, o mundo moderno é desencantado, no sentido de que a religião parou de abraçar e dirigir a arte, a ética e o conhecimento. O homem, porém, tornou-se ele mesmo o encantado: Descartes colocou o fundamento do conhecimento no eu do cogito, uma substância não extensa, portanto metafísica. E esse eu do cogito foi identificado ao homem.

Para completar o que Heidegger chama de “metafísica da subjetividade”, o subjectum, ou seja, o que subjaz, também foi identificado ao homem. Então as coisas ganham objetividade ao serem representadas pelo homem.

Parece banal dizer que “as coisas são como as vemos”. Mas não é banal. O fundamento do conhecimento, e portanto da legitimidade de manipular tudo, está no homem. O mundo perde existência autônoma, e precisa ser representado pelo homem, tornar-se imagem, para então ser algo.

Pense no quanto isso tem potencial para ser um drama, para quem quer que a vida tenha um sentido. A vida não existe mais. O que existe é o que o homem diz ser a vida. E para um indivíduo não faltam sentidos sendo ofertados.

Eventualmente, alguém procura se livrar dessas sugestões, que lhe parecem forçadas, e encontrar seu próprio sentido de vida. E ele faz essa busca pensando no que tem e no que não tem sentido para ele. Neste pensamento, ele chega a uma ideia que situa a metafísica fora do homem. Muitos, hoje, dizem crer em “energia”. Isso ocorre porque Deus já não é mais o primeiro candidato a absoluto, e também porque o homem não quer ficar entregue a si mesmo, seja pela sua fragilidade, seja por suas imposições.

Os que ainda pensam em Deus, o fazem ou por fé, que é uma emoção inexplicável, ou para tentarem fugir do homem. No primeiro caso, a pessoa provavelmente não pergunta a si mesma se acredita ou não em Deus. No segundo caso, acho que há espaço para essa pergunta. Em ambos os casos, porém, fazem a pergunta sobre a crença em Deus para outras pessoas. Mas aquele que tem fé parece entender que há os que não têm fé. Já aquele que quer fugir do homem, não aceita quem hesita em crer ou até recusa Deus.

A dúvida sobre Deus, ou a ideia de que o sentido da vida pode ser outro é vista, pelos que pensam em Deus porque desconfiam do homem, como um malefício. Esse tipo de crente em Deus fará de tudo para agregar os outros, inclusive, ou melhor, preferencialmente, denegrindo as coisas de que o homem gosta. O neopentecostalismo, por exemplo, é uma ciência dos males do mundo e do homem, mais do que uma religião, um exercício de fé.

Quem é perguntado se acredita em Deus fica, por um momento, pensando nisso. Pensa nessa possibilidade de sentido da vida. Ele já estava às voltas com as buscas por outros sentidos (pensando em como seria seu futuro no trabalho em que está, por exemplo). É por isso que essa pergunta sempre pega alguém de calças curtas. O homem quer fugir do homem, e faz essa sugestão para alguém, que então corre o risco de tropeçar.

Se fizerem isso com você, saiba que quem pergunta é apenas alguém tentando ter o controle das coisas, principalmente de si mesmo.

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