A pretensão universalizante do discurso comum

Werner Jaeger explica que a paideia grega não se define pelas noções modernas de civilização, cultura, tradição, literatura ou educação. Paideia é um conceito que abrange todos esses aspectos. Essa abrangência é comum a muitas palavras gregas.

Paideia é uma experiência sem dúvida profunda, importante para o indivíduo e a comunidade, de conhecimento e de alçamento do espírito humano ao seu melhor. Como outras experiências gregas, ela almeja a universalidade.

Em tempos posteriores, cada um daqueles aspectos da paideia trilhou caminhos separados. Falando especificamente de cultura, ela deixou de ter o sentido de “cultura humana”, universal, e agora é usada como “cultura de um povo”, particular. Mas o senso comum a utiliza ainda com outro sentido: o de “cultura de um grupo”.

Numa turma de formação em filosofia, na disciplina de língua portuguesa, o professor diferenciava os contextos da linguagem oral: Com nossos amigos usamos linguagem informal; na universidade usamos linguagem formal e acadêmica; e em casa usamos linguagem com apelo emocional.

O professor contou a observação que tem feito de alunos jovens de uma escola pública em que também leciona: a linguagem deles mantém-se circunscrita às palavras e aos temas dos funks que eles escutam. Segundo o professor, eles não dizem nada que saia dos assuntos sexo, violência e crime.

Estas observações ocorreram ao professor quando ele estava lendo e comentando um texto sobre gramática e, em certa altura, o autor recomendou às escolas que utilizassem a linguagem natural das crianças para, a partir dela, ensinar a normativa. Mas como fazer tal coisa, se os jovens parecem muito presos àquela linguagem do funk?

Bem, por mais que algumas crianças e jovens pareçam manter-se restritos à cultura do funk, e refratários a outros contextos normativos e usos da língua, na escola eles no máximo têm admiração por aqueles temas. Nenhum deles (ainda) está carregando fuzil na escola. Enquanto está na escola e é aluno, o garoto não é traficante. E mesmo no contexto do tráfico, é comum, sabemos, que se tenha falas sobre um sonho de se deixar aquela vida.

O homem não ocupa plenamente um lugar, pois costuma também querer alcançar alguma coisa diferente. O que faz com que a cultura de um grupo seja espelhada em todos os comportamentos de um homem é a este homem faltarem os recursos (linguísticos) para falar diferentemente. O jovem que usa “tia” para todas as professoras, inclusive a diretora da escola, não mostra a competência de modificar sua linguagem e, portanto, de modificar seu comportamento. A cultura do pequeno grupo parece agarrá-lo com braços bem fortes. Mas, ainda assim, existe uma certa tensão entre particularismos.

O homem é uma tensão entre o que é e o que quer ser, entre a linguagem que tem e a que queria ter (o menino expressa a vontade de ser criminoso, ou seja, de participar do contexto linguístico desse grupo, usando algumas palavras próprias a ele), e entre a linguagem que tem e a que lhe falta desenvolver, para sair da primeira.

O entendimento restrito que hoje se tem, não apenas de cultura mas também de educação, tem a ver com um entendimento restrito do individuo e das suas possibilidades. Se a cultura e a educação limitam-se às suas circunstâncias, o homem jamais poderá dar um salto delas. E cada indivíduo ou grupo terá seu destino escrito na frente das caixinhas que os encerrarão.

O discurso universalizante da filosofia leva a interrogarmos a pretensão de universalidade daquilo que é particular. Ele nos faz tratar o destino humano como aberto. Pois o homem não está tão bem assentado em um lugar, quanto o que ele mesmo ou alguém diz sobre ele.

É preciso fazer uma crítica das pretensões dos nossos discursos.

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