A privatização do mal

Em Nova York, Roma ou São Paulo você encontra pessoas e seus cães morando na rua. Boa parte é pedinte. Vários homens e mulheres desse grupo, apesar de não estar envolvida com drogas, foi castigada pela dureza da rua de tal modo que não têm mais condições de assumir trabalho.

Dentes infeccionados trouxeram para a corrente sanguínea dessas pessoas males crônicos. São pessoas que não têm ninguém. Conhecem talvez a única experiência realmente trágica e a mais aterradora, a do desamparo.  Qualquer ser galáctico, diria Kant, que tivesse um coração, se apiedaria de uma pessoa assim. Mas, para um grupo de viventes que se preocupam com o mal, esse descalabro não basta, ou melhor, não serve como elemento de preocupação e lágrima. O mal que querem colocar numa caixinha e trazerem para casa não pode ser assim, de tal modo desvalido, mendicante e sem charme.  Precisam de um mal que tenha certo apelo historiográfico, certa disposição para a teoria. Algo como “o neofascismo” é um mal charmoso. “Neofascismo” traz intelectuais para dele falar. Então, é verdadeiramente um mal. Mas o sofrimento do José da Silva na rua, sem comer e com 39 graus de febre, isolado e perdido no mundo aos 65 anos,, não é um mal, é uma moléstia individual junto de seu portador. Não é o mal que se traz para dizer de boca cheia “isso é o mal”!

Estamos vivendo a privatização do mal. Há pessoas que se acostumaram com o mal em grande estilo, um mal capaz de passeatas e de colocar desvios na história. Esse mal elas querem comprar. Exibir. Querem fazer simpósio deles. Querem falar na mídia desse mal. Querem ter essa mal em casa como quem tem um brinquedo. O mal de José da Silva não lhes arranca nenhuma lágrima. É que tais pessoas não querem o mal que arranca lágrimas, querem o mal que lhes arranque discurso. “Na Europa ressurge o fascismo!” Oh! Isso sim é o mal que querem, algo espetacular, já catalogado pela sociologia e já registrado na historiografia. Esse mal dá mesa redonda. Aí sim! José da Silva não dá mesa redonda, dá trabalho – ou daria, se alguém fosse cuidar dele. Mas esse grupo que privatizou  a ideia do que e´o mal e´que não vai, pois são pessoas muito ocupadas com o mal, não com a moléstia do miserável e desamparado José da Silva.

Cada vez que vejo as pessoas tamparem o sofrimento que está logo ali abaixo do nariz delas por conta de algum mal histórico da Europa, seja o fascismo ou o xenofobismo, tendo a ficar com um pé atrás. Algo me incomoda. Algo me diz que uma tal preocupação não é senão uma ocupação. Todos nós temos coisas horríveis que poderíamos melhorar, mas o mal lá distante sempre feito na medida do envólucro teórico, instantaneamente aparece como que uma forma de nos tirar do esforço. Somos salvos para o deleite pelo “olha lá o neofascismo na Europa!” ou coisa parecida.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 01/08/2016

Filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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3 thoughts on “A privatização do mal

  1. Talvez nossos pais tenham nos ensinado a sermos insensíveis quando dizem “na África as crianças passam fome” e coisas do tipo.

  2. Wittgenstein tem uma frase célebre que diz que é muito mais fácil se sensibilizar com os horrores de uma guerra do que com o mal que está embaixo de nosso nariz.

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