A solução para as ‘fake news’

O fenômeno das “fake news” não vai ser solucionado com a censura das páginas que propagam notícias falsas. Quem já acompanha esse movimento há algum tempo sabe que a estratégia de transformar o falso em “apenas” tendencioso é uma forma de fugir da censura (a esquerda, com sites como o “Brasil247”, é expert nisso. A direita sempre demora mais para aprender). A solução para as fake news é mais educação.

O problema é que, quando procuramos saber o que pensam os educadores, nos deparamos com alguns absurdos que indicam, justamente, a falta de uma boa formação. Não é incomum ouvir propostas de uma escola “inovadora” que são repetidas, no mínimo, há algumas décadas. Um dos maiores expoentes dessa corrente (predominante) de pensamento é a ilusão da escola atraente: o conhecimento não é mais necessário, “pois a informação está na internet”. O aluno “apenas” precisa aprender a articulá-la.

Esse discurso é bastante atraente. A ideia de que não precisamos mais memorizar nada, de que a própria memorização é uma espécie de violência, algo antiquado e “tradicional” (como se isso fosse um defeito necessário), atrai a todos que, por odiarem a escola na infância, agora querem “revolucioná-la”. O discurso prega, ainda, que usar o digital ao invés do livro vá tornar a aula mais interessante.

Esses educadores esquecem de duas coisas: 1) do bom senso; e 2) do que é a infância e a adolescência. Primeiro, basta pensar no que é o ser humano para perceber que somos, em boa parte, memória. Se você tem dificuldade de conceber essa hipótese como evidente, assista ao filme “Para Sempre Alice”. Precisamos privilegiar a memória na infância e na adolescência porque o conteúdo memorizado será importante para que, com mais maturidade, o adulto jovem possa fazer operações avançadas com esse conhecimento.

É claro, não precisamos da volta da palmatória ou da humilhação. Mas precisamos de um ensino centrado na concentração, na autodisciplina, na repetição de exercícios e na formação do senso crítico. Essas etapas são uma premissa para uma boa formação. É possível conseguir isso deixando o aluno livre? Acho que isso beira o impossível. Basta retornar aos nossos anos de escola. O que nos aborrecia era o formato da aula? Era a didática do professor? Ou era absolutamente tudo que exigisse de nós algumas horas de concentração e de controle dos impulsos?

Ser criança e ser adolescente é estar sempre pronto para as brincadeiras, o futebol, o basquete, a socialização, etc. Temos mais energia do que em qualquer outro período da vida. É muito difícil que alguma criança goste da escola nessa fase. Eu, particularmente, achava um saco (e até que gostava de estudar, às vezes). No entanto, depois da escola vêm as instituições, a vida pública, o emprego, a família, as responsabilidades. Ninguém escapa. Se a escola não prepara bem os estudantes para essa vida adulta, que pressupõe regras e, principalmente, um mundo que nunca será exatamente como queremos, a sociedade corre um risco enorme de se autodestruir a longo prazo.

O fenômeno das fake news não ganharia tanta força em uma sociedade em que as pessoas soubessem que a informação que reforça aquilo em que já acreditávamos poderia ser tão falsa quanto aquela que vai contra nossas intuições (toda a formação básica deve ensinar isso); que o conhecimento deve ser justificado a partir de fontes múltiplas e confiáveis (toda a formação básica deve ensinar isso); que opinião não é conhecimento (filosofia, principalmente); que o verdadeiro é aquilo que corresponde à realidade (todo o ensino básico deve reforçar isso, mas a filosofia possui um papel central nesse tópico).

A educação precisa retomar o básico, precisa de premissas fundamentais, de rigor técnico e, principalmente, de bons profissionais. Sociedades miseráveis conseguem níveis melhores do que os nossos em educação sem a utilização de nenhuma roda reinventada. Tem gente aprendendo lógica binária de computação na louça, sem nem ao menos ter uma merenda decente. E nós, que possuímos recursos para uma boa educação, queremos investir em computadores para (meia dúzia de crianças) aprenderem operações matemáticas jogando alguma porcaria mal programada, queremos investir em tablets para todo mundo quebrar na primeira semana, ensino a distância para a Kroton (digo, para os estudantes), entre outras formas de jogar dinheiro no lixo. Espalhar fake news é pouco para um país com a educação como a nossa.

(Vou guardar esse texto para quando a tecnologia digital for tão banal quanto os livros físicos (não falta muito) e os “educadores inovadores” resolverem que a solução para a educação deixar de ser retrógrada é cada um criar a própria tabuada etc.)

Licenciado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestrando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Estudante de especialização em Educação, com ênfase em Ensino de Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Editor adjunto da revista Redescrições. Membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society. Finalista do Prêmio JOTA/Inac de Combate à Corrupção do ano de 2016. Participou da organização do XIV Congresso Internacional da Société Internationale pour l’Étude de la Philosophie Médiévale (SIEPM). Atua nas seguintes linhas de pesquisa: Tolerância no Liberalismo Moderno; Liberdade de Expressão; Pluralismo de Valores; Liberalismo; Socialismo; Social-Democracia; Filosofia Política e Social; Filosofia Moderna.

Gostou? Compartilhe:

One thought on “A solução para as ‘fake news’

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *