A Suprema ignorância

Sebastián Piñera é o típico político tonto de direita conservador. Presidente do Chile pela segunda vez, esteve recentemente no Brasil e causou desconforto com a Ministra Carmém Lúcia, Presidente do Supremo Tribunal Federal, e com outros dois ministros da corte. Em uma conversa pública, Piñera soltou a seguinte pérola: “Quando falha a Suprema Corte, a quem se recorre?” Essa fala do presidente chileno ganhou destaque na imprensa brasileira. A percepção que se tinha nos jornais era a de que Piñera quis fazer uma piadinha com os membros da Suprema Corte brasileira. Mas não foi bem isso. Vejamos.

Logo no início da conversa Piñera fez questão de dizer que os julgamentos do Supremo são conhecidos no Chile, chegando ao ponto de serem transmitidos na televisão nacional. Em seguida emendou com inúmeras perguntas sobre o funcionamento do judiciário brasileiro e a estrutura do STF. Foi aí que soltou a peróla que pegou Carmén Lúcia, Edsson Fachin e Dia Toffoli de calças curtas, como diziam os antigos. A conversa então caminhou para o fim.

Piñera expôs aquilo que grande parte dos conservadores brasileiros pensam a respeito do judiciário. E aí incluo também parte da esquerda e toda a direita, haja vista as investidas no combate a corrupção. Para essas pessoas o judiciário bom é aquele que não aparece, e o juiz perfeito é aquele que se esconde atrás da própria toga. Essa gente então adora dizer que “está havendo uma politização da justiça”. Ora bolas, sabemos bem que no fundo essa gente quer um judiciário que não apareça pois isso é na maioria das vezes sinonimo de fraqueza..

Por muitos anos, ou melhor, muitas décadas e até séculos o judiciário brasileiro viveu apagado. Pouco se sabia do funcionamento da justiça em nosso país. A própria população não tinha conhecimento das decisões tomadas, nem sequer sabia que existia um Supremo Tribunal Federal. A divisão dos três poderes, aquela pensada por Montesquieu para funcionar em perfeito equilíbrio, aqui funcionava meio capenga. Executivo e legislativo tinham toda a pompa, e o judiciário andava sempre apagado. Alguém lembra o nome de um Presidente do Supremo dos anos 90? Duvido que lembrem!

A piada que Piñera fez – que não foi uma piada – revela no fundo o que os conservadores pensam e querem do judiciário: que os juízes se tranquem nos Tribunais e fiquem despachando as papeladas. Nada de protagonismo! Mas para azar dele e das quadrilhas instaladas na política brasileira, o judiciário finalmente criou coragem e mostrou a cara. A toga não esconde mais nada. Joaquim Barbosa, Sérgio Moro, Marcelo Bretas, Luís Roberto Barroso… são exemplos de juízes que cansaram de se calar perante tudo o que acontecia e acontece em nossa política. O judiciário deixou os bastidores e assumiu o palco. Isso é bom, muito bom.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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