A tese pseudo-sociológica do estudo assassino

Hoje circulou uma imagem que foi publicada na página do MEC, em comemoração ao Dia do Estudante, em que uma menina diz que por muito tempo (não lembro quanto) dormiu apenas 4 horas por dia para estudar para o vestibular e ingressar em uma Universidade Federal.

As críticas logo vieram: estudar tanto para ingressar na Universidade pública seria um atentado à saúde, algo que não deveria ser incentivado e que só demonstraria a falência do nosso sistema de educação pública. Logo surgiram os especialistas em medicina das ciências sociais e afins para falar dos malefícios que as horas de estudo causam, como tendinite, diarreia, estres, depressão, etc. — ora, existe alguma atividade que não tenha implicações negativas para a saúde? Estudar muito, algo que sempre foi uma opção individual, se torna quase que uma imposição do Estado ao indivíduo.

Minha tendência ao ver qualquer publicação do MEC é quase sempre a mesma: como não se irritar com um ministério que faz mais propaganda do que a Coca Cola e não propõe nada de concreto para a crise que leva cada vez mais a nossa educação para o fundo do poço?

De fato, nosso ensino básico é uma porcaria tanto no âmbito público quanto no privado, com raras exceções. Mas isso não é resultado apenas de governantes. Os responsáveis pela deterioração da educação somos nós. Um bom ensino é aquele que faz o aluno estudar, desenvolver a vontade de pesquisar e adquirir o básico para a vida adulta. Ora, um ensino desses, no Brasil, logo seria chamado de “opressor”, ou de algum outro jargão que ainda está para ser inventado. Não gostamos de estudar e não gostamos de quem estuda.

Se você estuda muito, ou será considerado pedante ou será vitimizado. A meritocracia passa a ser demonizada, toda desigualdade passa a ser injusta, e ideias um tanto bizarras começam a surgir, como um ensino superior para todos (diga-se, os que estudam, os que não estudam e os que só querem entrar no DCE para aprender a ser político), por exemplo.

Em qualquer país que preze pela educação só há um meio de ingressar na Universidade, seja ela pública ou privada: se matando de tanto estudar — muitas vezes, dividindo o estudo com o trabalho. Isso porque quem realmente preza pela educação sabe da importância das horas de estudo incessante. Quanto mais se estuda, mais aumentam as chances de se fazer o que gosta no futuro, mais senso crítico é adquirido, maior é a valorização no trabalho, na carreira e na sociedade. Quanto mais se estuda, maiores as chances de aproveitar esse estudo para a transformação social. O estudo é uma das poucas experiências realmente capazes de promover uma reviravolta na vida individual e social — e se alguém tem peito de estudar, sei lá, dez horas por dia, melhor para ela.

O que ocorre no Brasil, por incrível que pareça, é o ingresso na Universidade com a falta de estudo. Vários cursos aceitam alunos com notas baixas, e estes passam a confundir a vida acadêmica com a vida política. Chegam ao Ensino Superior sem saber o que é o saber. Isso sim é preocupante! Isso sim é capaz de destruir a Universidade brasileira e promover o fracasso intelectual de toda uma geração.

Sei que os militantes que citei no início são preguiçosos demais para chegar até o fim deste texto. Afinal, oito parágrafos é desumano!

Acadêmico de Filosofia pela PUCRS. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Pesquisador colaborador do CEFA. Editor adjunto da revista Redescrições, do GT Pragmatismo e Filosofia Americana da ANPOF. Também é membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society.
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7 thoughts on “A tese pseudo-sociológica do estudo assassino

  1. A disciplina dos estudos é algo que foi excluído da narrativa da educação. A disciplina do pensamento e do corpo sempre foram as bases da educação moderna, através da filosofia da educação. Mas isso foi deixado de lado na escola básica. Nãos e disciplina mais nada para nada.

  2. Já passou da hora do MEC rever essa ideia de preencher todas as vagas da universidade. Por razões econômica e, obviamente, educacional.

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