A universidade pública tem que ser gratuita!

Além da reprovação, de um certo tempo para cá um novo medo vem atormentando alguns vestibulandos: ter de pagar pela universidade pública. Os defensores da ideia dizem que ela só viria a ajudar. Mas será mesmo que um novo carnê no fim do mês é o mais justo e eficiente?

Não há dúvida que a crise nos bateu forte. Nessa queda, as universidades públicas também não escaparam do impacto. Para piorar, com o novo governo não veio ajuda e, sim, prejuízo. Um reforço orçamentário que fosse independente dos governos não poderia ser de grande ajuda? Imaginemos as mensalidades dos estudantes dando melhores condições de as universidades se manterem mesmo em tempos de crises!

Nada mais errado.

O impacto que uma cobrança traria aos cofres das universidades é simplesmente mínimo. E isso por uma razão mais simples ainda: a renda do brasileiro não cobre uma educação superior de qualidade. Cada um pagando o seu curso é uma possibilidade para muitos poucos indivíduos, mas jamais será uma politica educacional para uma nação. Até mesmo países ricos necessitam do estado investindo pesado em instituições de ensino superior! Em países como o Brasil, universidade pública que fizesse caixa com estudante não veria nenhum tipo de melhora significativa do seu orçamento.

Ora, pouco que fosse, não seria a cobrança um pouco mais de justiça para com os mais pobres?

Pobres e ricos pagam impostos. E é claro que o impacto de 10% na renda do Luciano Hang é absurdamente menor do que 10% na renda de quem recebe menos de 1 salário mínimo. Mas disso não se segue que a desigualdade deva ser enfrentada aí. Aliás, chega a ser ridículo falar em justiça quando se está falando de uma medida que não melhorará em nada a vida dos pobres! Desigualdade temos de enfrentar é na tributação. Aumentando os impostos dos mais ricos e diminuindo os impostos dos mais pobres, diminuímos a distância entre ricos de pobres. Isso, sim, é medida impactante e justa.

Ademais, por que não se falar dos riscos da proposta? Ela por si já se mostra errada. Todavia, caso fosse implementada, não só seria problemática como também poderia tirar dinheiro da universidade. Afinal, ela poderia fazer com que os mais ricos passassem a migrar para as faculdades privadas, deixando as universidades públicas cada vez mais parecidas com os outros serviços públicos. Uma observação no que é nossa educação básica e no que é nossa saúde nos mostrará bem o que são os outros serviços públicos. Pode ser um tremendo tiro no pé tirar das nossas universidades os mais ricos e, com isso, tirar a pressão por mais recursos que eles são capazes de realizar.

Em vez de ficarmos acabando com o sono dos nossos vestibulandos deveríamos é deixá-los tranquilos e incentivá-los a brigar por uma reforma tributária. A universidade pública e gratuita é a garantia de uma formação que dá futuro e dispensa trança-pés. A desigualdade reduzida é o sintoma de que o futuro pode ocorrer numa sociedade em que valha a pena a viver.

25 de junho de 2019 – Isaias Bispo de Miranda é estudante de filosofia na PUC-SP.

Gostou? Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.