Abortando… o pensamento!

Os franceses tiveram a coragem que poucas pessoas tiveram nesse mundo. Talvez Paris seja a Cidade Luz pois a França foi a luz no fundo do túnel da Europa, bem como de todo o ocidente. A Revolução era mais do que uma inveja do que os ingleses haviam feito na América com a Revolução Americana, era ousadia, e coragem. Decapitar o Rei em praça pública foi a punhalada final na monarquia e no absolutismo. Os monarcas então, mesmo que ainda presentes na contemporaneidade, como a Rainha da Inglaterra, não passam de fantoches que enfeitam castelos e atraem turistas. Além é claro de onerar um pouco o Estado!

A revolução demarcou as linhas mestras do que seria a política em todo o mundo. Os franceses literalmente escreveram certo em linhas tortas. Quando na Assembleia Nacional os defensores do povo se sentaram a esquerda, e os defensores do monarca se sentaram a direita, estava moldado o formato definitivo da política. Era como se Maquiavel tivesse começado a trabalhar a argila, e os franceses tivessem dado o formato final a peça. Os dois grandes campos políticos- esquerda e direita – teriam suas peculiaridades. A esquerda, conhecida por defender os pobres, se aproximaria do marxismo. Já a direita, conhecida pela defesa dos ricos, se aproximaria do liberalismo.

Mas a Revolução Francesa, como toda grande transformação na história, não pode realizar a utopia. Até porque todas as utopias são irrealizáveis! Caso contrário, não seria utopias. Os franceses deixaram uma marca que não queriam. Talvez, para sermos justos, nem deveríamos creditar a Revolução os frutos do que se tornaram a esquerda e a direita enquanto agrupamento de pessoas. Os militantes tomaram os campos políticos enquanto camisas de força que os impediram de serem livres, e por liberdade me refiro a capacidade de pensar de forma diferente e inovadora. Um exemplo disso é a questão do aborto.

Vira e mexe esse tema surge na mídia e a sociedade brasileira faz ele se movimentar nas redes sociais. Mas o que vemos no Facebook, por exemplo, é muito mais burrice do que outra coisa. A esquerda e direita se põe como camisas de força que impedem as pessoas de pensarem.

A direita, em geral mais conservadora e religiosa, invoca os princípios de Deus e do cristianismo para ser contra o aborto. Já a esquerda, mais revolucionária e liberal nesse ponto, evocada a liberdade da mulher para ser a favor do aborto. A discussão fica em torno dos contra e dos a favor. Um maniqueísmo que emburrece. Duvida? Basta conversar com 100 pessoas contrárias ao aborto para perceber e constatar que todas utilizam-se do mesmo argumento para serem contrárias. Mesmo coisa os que são a favor, sempre os mesmos argumentos. Ou seja, ouviram isso de alguém e começaram a repetir. Não conseguem fugir da dualidade contra ou a favor, não conseguem sair da caixinha e pensar diferente, ou, no fim e a cabo, não conseguem inovar e criar e recriar narrativas.

Como não me ponho em determinado ponto antes da questão, prefiro fugir da caixinha e pensar diferente. Não sigo nem os deuses da esquerda, e muito menos os da direita. Gosto de inovar, pensar diferente, criar e recriar as questões, ou melhor, nos termos do filósofo americano Richard Rorty (19-20), redescrever as narrativas. Dessa forma, faço coro e endosso a proposta do meu amigo e também filósofo da Cidade de São Paulo, Paulo Ghiraldelli Junior, na proposta de pensarmos na “adoção programada”. O que seria isso?

Pensar em abortar ou não é a forma mais fácil de resolvermos o problema. Sim ou não é bem mais fácil do que uma problemática. Definir quando há ou não vida no feto é uma tarefa muito complexa, e a reposta de hoje da ciência, que é um contínuo em transformação, pode não ser mais a mesma na semana que vem. Um bom exemplo disso, de quanto a ciência muda, seria o caso da morte. Os cientistas diziam que a morte acontecia quando o coração parava de bater. Depois de um tempo, mudaram de ideia, e passaram a definir a morte quando não houvesse mais atividade cerebral. Só que mais atualmente alguns cientistas já tem contestado isso visto que mesmo após “estarmos mortos”, nossas unhas e cabelos continuam crescendo. Ou seja, uma parte do nosso corpo continua funcionando mesmo com o coração e o cérebro parados. Diante disso, com um cientista dizendo que até os 3 meses de idade não há vida no feto, qual a garantia que não mudarão de ideia e dirão o contrário em pouco tempo? A ciência é falível meus caros! E na semana que vem os cientistas podem dizer que um feto de poucas semanas já possui sinapses ou coisas semelhantes.

A adoção programada seria um sistema semelhante a barriga de aluguel, mas sem intenção antes da fecundação. Na barriga de aluguel o casal tem a intenção de ter um filho, arruma uma barriga, e então fecunda os espermatozoides. Na adoção programa, as mães que não quisessem ter os filhos, e pensassem em abortar, iriam encaminhar os bebês para adoção antes mesmo deles nascerem. Dessa forma, ainda na barriga da mulher, a criança seria adotada por uma família que lhe desse amor e carinho, e então quando a mulher desse a luz, imediatamente o bebê seria encaminhado a família adotiva. Isso é fácil de se fazer, basta querermos. Um sistema como esse geraria baixo custo, e o Estado poderia implementá-lo em pouco tempo. Evitaríamos abortos, crianças abandonadas, e meninos de rua. Pois há uma face da questão que a esquerda não pensa: a das mulheres que não abortam não porque a lei criminaliza, mas porque sua consciência não permite, e mais tarde acabam por abandonar os filhos na primeira lixeira que encontram. Essas mulheres não abortarão mesmo que a legislação permita. A adoção programada é a melhor proposta nesse exemplo. Quem sabe em pouco tempo possamos pensar e outras alternativas. Mas por enquanto, para fugirmos da burrice de ser contra ou a favor do aborto, o melhor que temos é isso.

Hugo Lopes de Oliveira. Historiador, Filósofo, Escritor e Professor. Graduado em História pela UFRRJ e Pós-graduado em Ensino de História pelo Colégio Pedro II. hugoufrrj@hotmail.com

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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