Acreditamos ser deuses porque acreditamos na comunicação?

E se eu te dissesse que o mundo perfeito é bem possível de ser realizado? Duvidaria? Usaria dos inúmeros genocídios, todos feitos por “almas boas”, por quem “só queria fazer o bem”, para mostrar que eu estou errado? Mas e se eu complementasse dizendo que a chave para o mundo ideal está na boca de cada um de nós?

Imagine que você esteja com sede, mas muita sede mesmo, e que, por algum motivo, como uma perna quebrada ou uma forte dor muscular, você não possa ir até o bebedouro para acabar com a secura. E aí? O que você faz? A resposta é óbvia: pede ajuda, claro! Por essas e por outras inventamos o “por favor”!

Agora imagine que ao seu lado estou eu, Isaías. Você me lança uma cara de apelo e, enfim, me solicita o copo d’água. Passa-se dois minutos e lá está você, satisfeito, e talvez até distraído da sua condição de quem não pode andar. Tudo isso porque eu, como uma boa pessoa normal, te fiz um favor. Você falando comigo, eu entendendo o que você diz e você tendo o que quer. O que aconteceu entre nós, todos sabemos: houve comunicação. E é na comunicação que devemos prestar atenção.

Antes de mais nada, por que comunicação? Qual é a relação disso com a utopia? Será mesmo que a coisa que rola entre senhoras amantes do cuidar da vida alheia, as famosas “marocas”, tem algo a nos dizer sobre o mundo perfeito? Algo tão banal quanto aquilo que adoramos fazer, muitas vezes, devido a sua facilidade! Algo tão banal quanto comunicação! O que é mais fácil que falar e escutar?

Na nossa imaginação lá atrás, visualizamos uma situação ideal onde seu resultado não foi outro senão o ideal. Eu e você, ambos falantes do português, utilizamos nossas bocas e ouvidos de modo a se relacionarem com as nossas mãos para, finalmente, nossos sistemas nervosos reagirem como o esperado: o hormônio de satisfação correr pelo meu e pelo seu corpo. Ora, eu poderia muito bem, em vez de água, dar um tapa na sua cara! Mesmo entendendo o seu desejo, eu poderia não o conceder, simplesmente porque, digamos, eu não gostei do seu tênis azul. Se isso tivesse ocorrido, teria se dado algo como comunicação entre nós? Se levarmos em consideração essa nossa noção de comunicação, a resposta é não, porque nessa noção, de natureza intuitiva, mais que emissor enviando uma mensagem entendível ao destinatário, comunicação é o destinatário dando, em forma de resposta, o que o emissor deseja. A noção intuitiva da comunicação é a noção de uma comunicação eficaz.

Mas se você pensar bem, perceberá que nossa noção intuitiva de comunicação parece pressupor que, uma vez tudo ocorrendo bem, todo mundo pode ter o que quer. Afinal, na comunicação eficaz, sempre quando eu peço um copo d’água, eu o recebo. Consequentemente, não podemos pensar que, sendo a felicidade a coisa que os homens mais querem, o mundo perfeito não é realmente possível de existir? Basta que todos possamos eficazmente nos comunicar! E todos nós, de uma maneira ou de outra, pensamos que a comunicação eficaz não só é possível de existir, como ela de fato existe. Prova disso, é que na maioria das vezes quando pedimos água não recebemos outra coisa que não o copo d’água.

IBM

Isaias Bispo de Miranda é violoncelista com formação na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP). Graduando do bacharelado em Ciências e Humanidades e do bacharelado em filosofia, ambos na Universidade Federal do ABC (UFABC), estuda a obra do filósofo alemão Peter Sloterdijk pelo Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA), onde também é membro.

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