O amor do decaído

“Eles não sabem porque ainda estão vivos”: ouvi uma pessoa falando. A vida é buscar o agradável? Não é buscar o prazer, pois ele é momentâneo. O agradável vai melhor com a necessidade de permanência. É um prazer descansado, que não se culpa, não faz o homem fugir, nem querer nada mais.

Então honro o Mal-Estar na Civilização: o interesse humano por um apaziguador do mundo que está do lado de fora do quarto; o colo amoroso, que mais do que dar a genitália, dá o ombro e os olhos; e o silêncio saudável dos órgãos.

Estando tudo certo, posso não fazer nada. Posso escolher fazer besteira, algo que me faça rir. Um acréscimo à situação de agrado. E que não me desagradem com ofensas, diminuições do meu valor, dúvidas de quem eu sou.

Filosomatos (filosomatos e filosofia são definidos por Sócrates, no Fédon), amor às coisas corpóreas. Filosofia: algo me incomoda, aqui no meu Éden. Mordi a maçã, por um espasmo de querer saber. O que eu queria saber, descobri depois. Aquela desobediência foi sem conteúdo.

A queda afastou o homem das coisas mesmas. Mas deu a ele conteúdos para a vontade, o querer saber, etc. Agambem (em “Língua e história: categorias linguísticas e categorias históricas no pensamento de Benjamin”) fala sobre a pura linguagem adamica, autotransparente, perfeitamente referente a si mesma. É uma retomada de Walter Benjamin.

A queda fez a fala não falar mais sobre si mesma, mas sobre as coisas. Fala, que no entanto, mostra-se falha, não unívoca. Ela é um querer falar, sem conseguir. Então o agrado é buscado como um descanso desta Babel.

A queda nos tirou da imediaticidade da fala, tornando-a meio. Deu-nos insuficiência, e busca pelo saber. Busca por uma fala definitiva, que toque a essência. O amor do filósofo é o do decaído, que reconhece sua situação e que, por isso mesmo, quer retornar.

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