O Anti-Intelectualismo brasileiro

Criou-se no Brasil um movimento de Anti-Intelectualismo, com doses de autoritarismo e teorias de conspiração tropicais. Esta é sem dúvida uma tendência mundial, porém, claro, com a bem conhecida criatividade brasileira ele se movimenta e cresce paulatinamente de maneira assustadora em nosso país.

Este movimento tem como princípio um certo gosto pela incultura e cria um fomento pelo aprendizado por “meios alternativos” e por informações de fontes duvidosas, em grande parte mentiras, notícias falsas e também com muitas teorias de conspiração ou teorias alternativas que não passam de um pastiche da história. De um lado cópias e do outro absurdos jamais vistos antes.   

Os temas invadem as mais variadas áreas de conhecimento como um bovarismo deprimente. Nazismo de esquerda, Terra plana, falso aquecimento global, Pepsi adoçada com fetos e o plano das vacinas esterilizadoras. Inacreditavelmente em plena era de amplo conhecimento  tecnológico, onde a informação e o conhecimento estão democratizados e com o acesso facilitado, temos centenas de pessoas que acreditam em tais questões sem o menor fundamento.

Estas “verdades individuais sob medida”, saem diretamente de canais do Youtube para instituições como Casa do Saber e Brasil Paralelo e perdem o tom de piadas engraçadas para tomarem o formato de preocupantes embustes e de disseminação de informações erradas e criação de conhecimento parvo. Quando tais questões encontram guarida no governo federal por meio do Ministério da Educação ou de Direitos Humanos, é mais do que necessário se combater e divulgar isso.

O projeto de lei chamado: “Escola sem Partido” – inconstitucional inclusive -, é um exemplo de como este tipo de movimento pode gerar tentativas de constranger professores já tão constrangidos por pais, alunos e por seus salários no final do mês. Muitos encontram-se intoxicados com teorias anti-vacinas e crianças tem passado por problemas devido a isso.

Isso tudo tem sido nomeado pelo Filósofo Paulo Ghiraldelli Jr, como uma possível deficiência cognitiva programada, ou seja, não seria uma deficiência congênita, mas sim algo que vai se programando e de tantas repetições de mentiras, o indivíduo vai reescrevendo a história e se fechando em uma bolha ideológica tão restrita e anti-intelectual que começa a nutrir certa raiva e mágoa pelo sistema de ensino formal e chega em uma etapa onde não sabe mais a diferença entre verdade ou mentira.    

O professor de Comunicação da universidade Estadual de Londrina André Azevedo da Fonseca, está passando uma temporada na Universidade Complutense de Madrid como professor convidado e faz parte de um grupo de pesquisadores internacionais que estudam a presença de símbolos religiosos nos meios de comunicação, na política, no cinema e na cultura de massas em geral, ele também em um estudo diferente fala sobre o viés cognitivo e sobre a dissonância cognitiva, onde muitas vezes nosso próprio cérebro nos manipula.

É o que está acontecendo hoje, algo como uma epidemia do empacamento e do não saber que vai criando atalhos cognitivos confortáveis em detrimento do pensar crítico ou pelo menos razoável. É gerado então um limite de percepção, onde a imagética reina e a guerra semiótica é o único meio de reiniciar este ciclo de repetição. Em determinado momento, a pessoa torna-se um ser humano limítrofe, incapaz de ir além de certos assuntos ela literalmente empaca ao ouvir as palavras chave.

Isso tem muito a ver com o modo de lidar com certos sentimentos e pensamentos conflitantes por terem sido absorvidos pré prontos são visões exportadas de um cérebro para serem importadas para outros, isso se transforma em um terreno fácil para a disseminação de doutrinação religiosa e ideológica, exatamente o que a maioria destas mesmas pessoas tanto denunciam e reclamam.

Simplesmente é deixar de enxergar o que as desagrada para que não seja preciso lidar com questões que critiquem sua visão de mundo, modo de pensar ou suas posições.    

É muito importante que os educadores e também a sociedade como um todo entenda este anti-intelectualismo brasileiro para o combater e não permitir que ele destrua a escola e a educação brasileira como um todo.

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