Boris Groys e o vazio dos deuses ocultos

Por que insistimos tanto em buscar saber o que está “oculto”? Existe algo além das aparências?

Uma visão metafórica e iluminista da história pode dizer que por vários séculos, nós fomos escravizados por deuses e divindades egocêntricas: o terreno devia ser desprezado em nome do absoluto divino; os desejos, as paixões, a má vontade e tudo aquilo que desvia a nossa atenção para o sensível deve ser deixado para trás. A realidade terrena, que os deuses nos ofereciam, deveria ser superada, para que retornássemos ao mundo perfeito, eterno e imutável. Em outras palavras, os deuses nos ofereciam uma realidade cheia de elementos que nos causavam desejo, para depois dizer que se seguíssemos nosso desejo, estaríamos nos distanciando da natureza divina, do mundo realmente perfeito. Deste modo, Deus se divertia enquanto consumia a nossa fé.

As sociedades avançaram, criamos instituições importantes, passamos a criar máquinas e a fazer revoluções. A Igreja deixou de ser a religião oficial do Estado e os valores absolutos perderam o seu valor. Seguindo, ainda, a visão metafórica e iluminista utilizada acima, pode-se dizer que nos revoltamos com Deus e com o absoluto. Já podemos ser guiados pela nossa própria razão, é o que dizíamos. Nos tornamos heróis humanos que combatem criaturas divinas. Nietzsche foi um dos primeiros a perceber a morte de Deus. Se Deus está morto, não há volta, devemos destruir todos os resquícios do cristianismo e do platonismo, que se tornaram vazios, para criarmos os nossos próprios valores, focados na vida na terra. A religião se torna uma empresa, tão terrena quanto qualquer outra, onde o divino se tornaria apenas mais um comerciante entre outros, como Nietzsche denuncia:

Conheço demasiado esses homens semelhantes a Deus; querem que se acredite neles e que a dúvida seja pecado. Também sei de sobra no que é que creem mais. Não é, certamente, em além-mundos e em gotas de sangue redentor; eles também creem principalmente no corpo, e seu corpo é para eles a coisa em si. O seu corpo, porém, é coisa enfermiça, e de boa vontade se livrariam dele. Por isso escutam os pregadores da morte, e eles mesmos pregam os além-mundos(1).

Ora, não é essa história que nós vimos se repetir em vários filmes de Hollywood? As salas de cinema ficam lotadas nos filmes em que heróis puramente humanos precisam lutar contra deuses, demônios, criaturas mais fortes ou qualquer outro personagem metafísico. Essa é a tese do filósofo alemão Boris Groys, em um artigo traduzido em 2001 para a Folha de São Paulo(2). Os deuses, que são imortais, não podem ser mortos mas sim, escravizados. (Talvez, se a nossa sociedade conseguisse absorver corretamente a filosofia de Nietzsche, os deuses já estivessem mortos e enterrados). Tentamos desprezar, no dia a dia, tudo aquilo que possa ter algum valor metafísico, afinal, aqueles artífices que tentaram escravizar os nossos desejos já estão presos. Mas e os artífices da nossa realidade atual, não podem acabar nos escravizando por meio dos nossos desejos? E se por trás desta realidade, que faz até do trabalho um objeto de consumo de massas e realização de desejos, se por trás dessa realidade existir uma espécie de deus que a utiliza para o nosso domínio? Essas perguntas podem parecer tolas, mas todos nós sabemos que é comum ver alguém questionando sobre o que está “por trás” de algo, especialmente quando se fala da mídia contemporânea ou de eventos políticos.

A dialética do senhor e do escravo, que o filósofo francês Alexandre Kojève analisa na obra de Hegel(3), é utilizada por Boris Groys (e no início deste texto) para explicar a sensação constante que temos de estarmos sendo manipulados: o senhor tem um escravo para realizar seus desejos de forma mais tranquila, sem precisar de muito esforço; mas o escravo, que já conhece bem os desejos do seu senhor, pode passar a manipulá-lo usando dos seus próprios desejos; assim, o senhor se torna um senhor escravizado pelo escravo. Somos senhores da realidade, mas tememos que aqueles que têm o poder de criar a nossa realidade (artistas, escritores, teóricos, arquitetos, engenheiros, etc.) acabem utilizando desse poder para a nossa dominação. Queremos ser sujeitos que consomem os objetos que nos são oferecidos, sem que a subjetividade que está praticamente oculta por trás desses objetos acabe nos transformando em outros objetos manipuláveis.

Os filmes de Hollywood (um dos maiores alvos de teorias conspiratórias quase esquizofrênicas), quando retratam guerras entre humanos e deuses ou demônios, acabam comprovando a tese de Boris Groys, com as salas de cinema lotadas. Um dos maiores sucessos da história do cinema hollywoodiano, Matrix, expõe um dos grandes medos que a era da tecnologia criou: que as máquinas criem uma realidade completamente artificial e passem a se utilizar do nosso consumo. Continuaríamos sendo senhores, porém, agora, senhores escravizados pelos nossos escravos — as máquinas — sem que saibamos disso. Na interpretação de Boris Groys, no entanto, o cinema, que ainda é visto por muitos como um meio de nos atrair para algo ilusório de modo que a verdade continue oculta, estava construindo uma auto-reflexão, ao exibir uma produção cinematográfica como Matrix:

[…] Ora, perguntará alguém: por que o espectador levará a sério esse tipo de auto-reflexão? […] [Porque] esses filmes ratificam a suspeita de que todo o mundo possa ser artificial — e assim, em sua pretensão crítica, vão muito além de todas as teorias que querem pensar o mundo como real, como natural — até mesmo no sentido da técnica, entendida como segunda natureza. O filme representa assim o “locus” [lugar] em que não só o próprio filme, mas todo o mundo atual, impregnado pela mídia, alcança uma auto-reflexão radical. No filme se dá a auto-reflexão de toda a mídia que opera com imagens animadas. Por isso só se pode interpretar o mundo presente da mídia comentando a auto-interpretação desse mundo — tal como essa auto-interpretação se manifesta no filme(4).

A ideia de que toda a realidade possa ser uma mentira, no entanto, já foi desmentida por Richard Rorty, em um artigo publicado em 2003, que foi traduzido aqui no blog(5). O ponto de Rorty, utilizando a filosofia de Donald Davidson e de Wittgenstein, é que a linguagem que utilizamos para descrever a realidade é formada de acordo com as experiências históricas de toda uma civilização. Sabemos o que é um castor, por exemplo, porque já o conhecemos de forma suficiente para formarmos uma crença sobre o que é um castor. Olhamos um castor e sabemos que ele é um castor, porque temos experiências anteriores sobre castores e se as compararmos, veremos que as características dessas experiências são coerentes. Mas e se o castor não for real, já que toda a realidade pode não ser real? A resposta que Davidson daria a essa pergunta, segundo Rorty, seria algo como um “como você pode dizer que esta realidade não é real, se você não pode compará-la com uma outra realidade que torne esta incoerente?” Mesmo quando o herói de Matrix foi libertado da realidade virtual em que vivia, aponta Rorty, as suas crenças sobre as coisas permaneceram iguais.

Ainda nos preocupamos com o que está por trás das coisas, mais uma vez, porque nunca absorvemos Nietzsche corretamente. Se seguíssemos os conselhos de Nietzsche, nos contentaríamos com a verdade que nos é oferecida de forma superficial e satisfatória(6). Perguntar o tempo todo sobre o que está por trás da realidade é indecente, é feio e estraga tudo. Quando uma verdade nos aparece, é mais interessante nos utilizarmos do pragmatismo americano e procurarmos descrevê-la de formas diferentes, mais úteis e ao mesmo tempo mais plausíveis. Ora, é essa a mensagem que Boris Groys encontra nos filmes americanos: quando um herói humano resolve partir para o combate com quem está por trás da realidade que o manipula, o que ele encontra é um mundo feio, destruído, sem graça, às vezes inabitável para um animal que gosta de consumir, como o humano.

A questão é que sempre que alguém procura se livrar da “manipulação midiática”, por exemplo, ela acaba sem mídia nenhuma, porque acredita que tudo o vem da mídia tem algum objetivo oculto, já que por trás dela existe um criador que conhece os nossos desejos. Por conta da sua tentação de querer sempre destruir o “monstro que a manipula” ela não consegue perceber que a mídia é um meio, não um fim. A minha interpretação sobre a auto-crítica feita pelo cinema é esta: o que o cinema fez foi abrir uma brecha importante para analisarmos os nossos desejos, anseios, angústias e tolices. Assim, ele serviu como um meio, não como um fim. É como se o cinema nos dissesse: “viram, eu estou expondo uma narrativa que descreve a sociedade, que no momento, pensa que eu tenho algum poder de manipulação. Agora vocês têm a chance de ouvir Nietzsche e acreditar mais em si mesmos, deixando de lado essa crítica besta de que eu manipulo alguém e passando a me utilizar como mais uma ferramenta para a criação de descrições sobre a realidade — e não sobre o que está por trás dela.”

Boris Groys nos dá ainda outra razão para que não se queira mais destruir a realidade artificial que nos separa do mundo real: onde estão as nossas descrições sociológicas e as nossas teorias econômicas, senão em uma dimensão artificial, que é a literatura? E as nossas narrativas históricas, que determinam o sentido das nossas vidas, não são também uma dimensão artificial? As habitações, os computadores, os meios de transporte, tudo isso não são realidades projetadas por alguém, disponíveis em dimensões literárias de várias ordens? E não é essa uma descrição feita a partir do que vivenciamos, que é capaz de refutar o nosso interesse em deuses escravizados que nos manipulam? Se considerarmos a realidade algo que é natural, que não foi criado por ninguém com o objetivo de manipular os nossos desejos, viveremos uma vida de simples sobrevivência.

Prefiro ser como o personagem traidor de Matrix, escolhendo a realidade que me é dada e que me oferece diversos elementos que tornam a minha vida agradável e que já é capaz de me deixar extremamente fascinado. O senhor escravizado pelo escravo não poderia ser infeliz, ou não seria escravizado pela realização dos seus desejos. Prefiro aprender com o talento daqueles que produzem esses elementos, do que tentar derrubá-los, como deuses metafísicos com intenções malignas de dominar a minha vida. Afinal, a vida é única para sermos o tipo de chato que procura verdades ocultas o tempo todo.

1 – Cf.  Za/ZA I “Dos crentes em além-mundos”.
2 – Boris Groys. DEUSES ESCRAVIZADOS: A guinada metafísica de Hollywood. São Paulo, 03 jun. 2001. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0306200105.htm>. Acesso em: 06 fev. 2015.
3- Alexandre Kojève. Introduction to the Reading of Hegel: Lectures on the Phenomenology of Spirit. 2. ed. Nova York: Cornell University Press, 1980. Disponível em: <https://archive.org/details/pdfy-xPoejl7ruL9jyW3_>. Acesso em: 06 fev. 2015.
4- Boris Groys. Idem.
5 – OUT OF THE MATRIX: How the late philosopher Donald Davidson showed that reality can’t be an illusion. Boston, 10 maio 2003. Disponível em: <http://www.boston.com/news/globe/ideas/articles/2003/10/05/out_of_the_matrix/>. Acesso em: 06 fev. 2015.
6 – Esta questão foi bem explicada pelo filósofo Paulo Ghiraldelli, no artigo Realidade e verdade: desconexões contemporâneas.

Acadêmico de Filosofia pela PUCRS. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Pesquisador colaborador do CEFA. Editor adjunto da revista Redescrições, do GT Pragmatismo e Filosofia Americana da ANPOF. Também é membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society.
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6 thoughts on “Boris Groys e o vazio dos deuses ocultos

  1. Agostinho disse que teve grande dificuldade em desprezar o terreno, para entregar-se a Deus. E disse que isso se devia ao fato de , justamente Deus, ter feito as coisas da terra tão agradáveis aos sentidos: as comidas matam a fome, mas pegam você por serem saborosas; as músicas da igreja deveriam não ter qualquer melodia, para que se pudesse apenas conservar a mensagem delas. Uma espécie de estoicismo. O investimento nas coisas da terra era ruim porque elas são corruptíveis, e levam aquele que as ama a também ser corruptível. Então há uma valorização das coisas de cima, junto de uma desvalorização das coisas de baixo. Como você falou, não demos ouvido a Nietzsche, continuamos considerando Deus. Mas seu texto deixa ver outra coisa, embora não explicitamente: agora o bom somos nós, e não Ele. Se antes Ele era o depositário dos nossos desejos, da nossa falta, agora tudo temos, e tememos que alguém vá pegar. Freud uma vez falou que o homem primitivo achava que o espirito do morto tinha raiva dele, por ele próprio estar morto e o vivo estar vivo. Ou seja, a falta também pode ser projetada. Então temos isso ainda hoje, com nossa experiencia de fantasmas ou de Deus: eles desejaram ter o que nós temos! É por isso que, além de estarem vivos, fantasmas e Deuses querem nos fazer mal. Mas é o mal da perda do que nos consideramos plenos.

  2. Um filme deste tipo, O Congresso Futurista. Leva esta suporta dualidade a um nível que deixou mesmo a mim, que sou insensível, incomodado e um bocado perturbado com o final do filme. No final o filma dá a ideia de que o entretenimento vai deixar de existir.

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