Brasil olímpico inaugura o “é proibido criticar”

Estamos engolindo os ufano-boys olímpicos de novo é?

Uma revista alemã disse bem ao usar a palavra “zombaria” ao se referir às Olimpíadas brasileiras. Um evento que começa pelo fio temático da sustentabilidade, diz a revista, não poderia deixar a poluição dominar as águas do Rio de Janeiro,  nem inaugurar um campo de golfe numa reserva ambiental na Barra da Tijuca e, menos ainda, ter deixado acontecer o sacrifício de uma onça depois do desfile da Tocha Oímpica em Manaus.

Mas, entre nós esse tipo de observação é proibida. Se os midiagogos ousam tecer algum comentário que destoa do oficialismo ufanista que domina mentes mais fracas nesses períodos de jogos, eles logo se refazem e se submetem O midiago deslumbrado consigo mesmo e, por isso, temeroso de falar algo que o tire de circulação, o unicampino Karnal, deixa de ser professor de História para voltar ao tom da Educação Moral e Cívica. Vejam o que disse: “Fomos negativos até anteontem. Agora começamos a possibilidade de uma virada nesse estado de espírito do nosso País. Talvez esse seja o grande legado olímpico que a realização dos Jogos deixe para o Brasil”. (jornal Estadão). É demais a subserviência desse tipo de gente!

Creio que nossa consciência necessita mais do jornalista alemão que do intelectual midiagogo brasileiro. Não há nenhum motivo para pararmos de fazermos a crítica a nós mesmos após 14 anos de um erro que cometemos por desejo de orgia. Entramos por um governo petista que nos empurrou para um pequeno êxito econômico e, como das outras vezes no passado, quando o mesmo ocorreu (em vários planos econômicos da ditadura e da democracia), ficamos deitados em berço esplêndido acreditando, de fato, que milagres econômicos existem. Basta nossa economia ficar aquecida por um tempo e todos nós – sociedade, governo, oposição etc. – esquecemos de que precisamos investir em infra-estrutura. Não deixamos portos e aeroportos em boas condições, não voltamos nossos olhares para a malha ferroviária, não cuidamos da rede rodoviária, não criamos capacidade de estocagem, não desenvolvemos corretamente a reformar agrária, não investimos no cuidado com a floresta e com o saneamento básico e, enfim, nunca cuidamos de melhorar o salário dos professores, única maneira de sairmos da eterna crise educacional que nos encontramos desde os anos 70. Agora, que estamos na baixa, é hora sim da crítica. Pois, se melhorarmos um pouco, vamos esquecer de novo que não fizemos “a tarefa de casa”.

No entanto, nossos intelectuais não podem mais criticar. Eles viraram isso aí que mostrei, midiagogos que precisam falar para públicos cativos. Os que criticam não criticam senão superficialmente, pois estão interessados em colocar a culpa em Temer, o vice do PT. Ou seja, procuram claques tanto quanto os ufano-boys. Uma boa parte dos filósofos autênticos, para escapar de entrar no debate centralizado por esses tipos duplos de midiáticos, se afastam do debate público.

A Olimpíadas são um momento dos jornais do exterior – já que nossa mídia não consegue sair do Mais Do Mesmo, que é o “golpe ou não golpe” – falar o que não se fala aqui. Nessa hora, o bloqueio midiático pela crítica séria é de tal ordem que o que resta a nós, filósofos, é fazer algum eco do que se diz de crítico lá fora, numa pequena chance de deixar um fresta de luz crítica reaparecer.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 06/08/2016

Filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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One thought on “Brasil olímpico inaugura o “é proibido criticar”

  1. É muito ridículo observar isso. O desejo de ser sentir orgulho do brasileiro passa por cima da autocrítica. Não vamos chegar a lugar nenhum assim.

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