Cachorro é felicidade

Toda vez que eu vejo o cachorro, vejo o bicho peludo, legal, amável, que adora cagar pelos cantos da casa e que, por conta da sua suposta incomunicabilidade para comigo, o chamo de “irracional”. Já o morador de rua que acabou de passar jamais conheceu um cachorro. Não por marginalidade, mas, sim, porque “cachorro”, para ele, jovenzinho na faixa dos treze, seria melhor chamado de “felicidade”. Ora, se tivéssemos amor mesmo pelo cachorro beijaríamos é seu focinho e não nossos dicionários! Mas é preciso nos dar um desconto? Porque apesar da nossa fixação por dicionários, o jovem morador de rua nunca se quer viu um Aurélio. Antes que filho de pais sem pais, ele é um filho do Brasil: uma economia brutalmente desigual que, apesar de reforços recentes, não impediu que ele, jovem, se tornasse um órfão de órfãos. Daí “felicidade” ser sinônimo para “cachorro” e, se canalhamente lhe perguntassem porquê ele não sai da rua, “rua” ser “comida”.

Isaias Bispo de Miranda – 21 de maio de 2018

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