Capitalismo da apatia e democracia representativa

A financeirização chegou e tomou conta do mundo. Somos comandados pelo capitalismo financeiro, ou capitalismo improdutivo, aquilo que Marx chamou de capitalismo fictício. É o dinheiro produzindo dinheiro, sem que haja a mercadoria.

O capitalismo deixou de ter como base as indústrias. Faz um bom tempo que o capitalismo industrial – aquele que produz sapatos, geladeiras, carros, etc – abriu alas para que o capitalismo financeiro passasse. Hoje se ganha dinheiro na Bolsa de Valores sem nada produzir. Algumas empresas literalmente não produzem nada, a não ser números e mais números na tela de um computador, as famosas ações.

Esse capitalismo financeiro, que hoje permite que empresas bilionárias caibam na palma de nossas mãos, em aplicativos – App’s – tem como símbolo mais a chamada “uberização”, o processo de precarização do trabalho onde o trabalhador não possui mais direitos, como carteira de trabalho, férias, 13º, jornada de trabalho fixa, etc. O trabalhador é convocado através de um app, realiza o serviço e em seguida está dispensado.

Todo esse processo histórico eu chamo de “capitalismo da apatia”, pois ele desonera por completo a nossa vida, nos dando uma falsa impressão de liberdade. Hoje é possível sentar em um sofá e ali permanecer com apenas um celular em sua mão. Nele está sua empresa, você trabalha, acessa o banco, pede comida, chama o Uber, paga contas, conversa com as pessoas, namora, transa, comete crimes, e mais uma infinidade de coisas. Isso sem levantar do sofá, numa situação totalmente apática.

Esse capitalismo da apatia nos empurra para uma compreensão da democracia liberal como puramente representativa. Queremos apenas atuar no dia da eleição apertando umas teclas na urna, e nada mais fazer – isso se em pouco tempo não passarmos a votar por um app sem sair de casa, com o celular na palma da mão. No restante do tempo permanecemos sentados no sofá com nosso celular, sem nenhum tipo de reação Agimos apenas a cada duas anos, quando das eleições.

Dessa forma, a democracia participativa, onde os cidadãos são ativos e participam do dia a dia da cidade – polis – não tem espaço. Vejam que nem mesmo o chamado “orçamento participativo”, onde a população decide onde serão gastos os recursos provenientes dos impostos, consegue avançar no Brasil. Nos últimos anos temos visto uma política neoliberal de supressão dos direitos sociais, trabalhistas, e de fortalecimento do capitalismo, com aumento da pobreza e da desigualdade social, mas a população não reage. Ela espera que aqueles que ela elegeu nas eleições reajam por ela. É uma total situação de apatia. Cenas como aquelas que vimos em 2013, onde a população tomou as ruas, se tornarão cada vez mais escassas. Em pouco tempo, acreditem, os protestos passarão a serem feitos através de um app, com nós deitados e nossos sofás e com o celular na palma mãos. É o capitalismo da apatia unido a democracia representativa.

3 thoughts on “Capitalismo da apatia e democracia representativa

  1. Numa noite, após a aula, no ensino médio, passei pelo Cefam, onde, ao ar livre, ocorriam apresentações teatrais de grupos de estudantes. Éramos uma grande reunião de jovens sob uma uma luz amarela, dessas de poste de praça. Experiência marcante, de cruzamento de olhares e de curiosidade em relação às pessoas, pelo menos da minha parte. Vários anos depois, em 2013, fui às ruas nas revoltas de junho. Evento, claro, politicamente interessantíssimo, em que o indivíduo se fez livre e autêntico. Foi, porém, ao meu ver, uma experiência pessoal menos integrada, mais individualista, mais… apática. Claro que para quem estava nas capitais tomando bala de borracha, ou para os jovens presos, não deve ter havido apatia. Mas a diferença que quero ressaltar é a apatia de envolvimento, de engajamento, que tem a ver com o espírito da época (lembremos de que o Cefam acabou!), algo que talvez só o capitalismo avançado (financeirizado) possa nos dar. Os movimentos dos trabalhadores uberizados e das torcidas antifascistas retomou um engajamento. Entretanto, dúvida incômoda, haverá luzes amarelas para os jovens de App?

  2. A mais pura verdade de pra onde estamos caminhando e como estamos sendo induzidos à esse caminho.
    Parabéns querido.

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