Chega de saudade

Comentário ao “A Cartomante”, de Machado de Assis)

Quando criança, Camilo possuía muitas superstições. Encerrada a influência da mãe sobre ele, tornou-se cético. O que acontecia era-lhe claro, pensava ele, baseado nas próprias certezas.

Com Vilela e Rita, Camilo formou um novo ambiente de crenças. Era uma família, com bons momentos, amor e segurança. Uma família composta por um triângulo amoroso. A amizade de Camilo e Vilela não estranhava o envolvimento dele com Rita: havia um equilíbrio. Vilela não precisava saber do amor entre Camilo e Rita. Sem sabê-lo, ele louvava este amor, resultado da união dos três. Não havia motivos para quebrar isso.

Camilo, então, começou a preocupar-se com o que o amigo sabia. Um amigo não faz questão de saber o que o outro sabe: o que importa é o que eles vivem juntos. Camilo desapareceu da casa de Vilela e Rita. Encontrava com ela em outros lugares, sempre regulado pela agenda. Rita inevitavelmente considerou Camilo distante dela. Afastar-se de Vilela, ela entendia, mas a inconstância com ela mesma era de se desconfiar. Mas sem que percebamos de imediato, forte sofrimento acometia a Vilela, com o esgarçamento do trio.

Camilo recebeu uma carta de Vilela solicitando encontro urgente. O rapaz teve certeza de que o marido descobrira a traição. O problema para Vilela não seria o envolvimento de Camilo e Rita, mas principalmente o fato de isto ter causado o distanciamento entre ele e o amigo. Era urgente revê-lo.

O chamado de Vilela poderia ser por qualquer motivo, como um tiro, uma surra, uma dr, etc. Qualquer chamado do amigo o faria mover-se depressa, com a sensação de débito pelo distanciamento.

O distanciamento com relação ao amigo era uma preocupação constante para Camilo. A cartomante avisou-o de que tudo ficaria bem. Ao fazer isso, ela reavivou, para o amigo faltoso, aquela sensação de segurança que uma família proporciona.

Os vaticínios da cartomante cumpriram-se, e realmente tudo ficou bem. Vilela decidira-se a encaminhá-los todos a um destino comum. Foi o fim das saudades.

“A Cartomante” não é sobre outra coisa que não a amizade.

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