Como ensinar palavrões aos nossos filhos

Por que falar palavrões é “errado”? Podemos substituir a censura moral por uma explicação filosófica do “palavrão”? Quando somos crianças, é comum sermos repreendidos quando falamos algum palavrão. Nossa boca é acusada de ser “suja”, mesmo que nós, os mini-infratores, não saibamos direito do que estamos falando. Os ouvidos dos nossos pais (e também, fora do âmbito familiar, das tias e dos professores) conhecem as referências de todos os palavrões do dicionário da imoralidade. Mas então não são os ouvidos adultos que são realmente “sujos”? Nem uma coisa nem outra. O ruim das descrições morais é que elas nos conduzem, frequentemente, para discussões pobres como essa.

O fato é que, a partir da minha experiência pessoal de criança de boca suja, muitas vezes mandei algum colega ir “se foder” sem ter a mínima ideia do que isso signifique. Mas eu sabia que a frase, dependendo do contexto, poderia ser agressiva, ofensiva, engraçada, descontraída, etc. Só não sabia o que significava. Tenho certeza de que boa parte das crianças de hoje e de ontem também passaram por isso. O que nós não percebemos é que as pobres crianças inocentes que falam palavras sujas sem saber o que significam são muito mais sábias do que os adultos moralistoides.

Você pergunta para alguém por qual motivo a palavra “cu” é feia. A pessoa pode se enrolar por um tempo, mas provavelmente acabará dizendo que é porque ela faz referência ao ânus. Então é o ânus que é feio, reprovável, imoral? Não! Não confie no que os adultos dizem! Esse mesmo adulto, quando vai no médico tratar as hemorroidas, não se sente ofendido quando o médico diz “ânus”. E em uma apresentação acadêmica ninguém fica vermelho quando o apresentador fala do “ânus do paciente”, etc. Claro, algumas pessoas acham o ânus imoral, mas não é isso que faz do palavrão um palavrão.

Chegamos, então, em um ponto esclarecedor: para todo palavrão existe uma palavra que é socialmente aceita em quase todos os contextos. Isso mesmo! Se eu estiver em um bar e um amigo substituir palavrões por sinônimos “não ofensivos” a todo momento, a minha reação será a de mandá-lo para a puta que o pariu. A conversa de bar, em si, é o ambiente para o palavrão. Se alguém na rua resolver implicar com o meu cachorro, não vou discutir com a pessoa usando palavras “de alto nível”. Vou falar todos os palavrões que aprendi na minha vida contra essa pessoa. Já imaginou uma torcida de futebol, gritando em coro, “ei, juiz, vá se catar”?

A descrição moral, que muitas vezes se torna moralistoide, não diz muita coisa sobre o palavrão. Mas há uma outra descrição possível: as palavras possuem mais ou menos força de acordo com o contexto em que estão inseridas. O palavrão, como o próprio nome diz, não é uma simples palavra do cotidiano. Ele possui uma carga semântica mais forte do que as outras palavras, mexe com nossas emoções positiva ou negativamente, dependendo do contexto. Não é uma palavra… é um palavrão!

As crianças, que não sabem quais são as referências das palavras que são chamadas de palavrões, tendem a entender com maior facilidade qual a função semântica do palavrão. Mas nem por isso ele deve ser permitido em todos os momentos. Existe alguém mais chato do que aquele que só fala palavrões? Pode-se tranquilamente ensinar as crianças que o palavrão não é proibido, não tem um estatuto ontológico de ser feio por natureza, ou uma premissa objetiva de ser moralmente errado. Ele é uma palavra que funciona muito bem em determinados contextos, e que deve ser usado moderadamente para que não perca a força semântica. É uma explicação muito melhor do que a moralistóide que diz que “é errado porque é” ou a que demoniza o ânus, o sexo, a prostituta, etc.

Você já educou seu filho para falar palavrões? Tenho certeza de que se você acompanhou atentamente esse texto, saberá que essa educação ensina muito mais do que somente a arte de ser boca suja.

Acadêmico de Filosofia pela PUCRS. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Pesquisador colaborador do CEFA. Editor adjunto da revista Redescrições, do GT Pragmatismo e Filosofia Americana da ANPOF. Também é membro do GT da ANPOF “Semiótica e Pragmatismo” e membro associado da The Richard Rorty Society.
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6 thoughts on “Como ensinar palavrões aos nossos filhos

  1. Um palavrão, como você bem sugeriu, é uma palavra com ênfase. E é uma palavra que se diz em lugares de relaxamento moral, como os estádios de futebol, o puteiro, a rua à noite, o bar, etc. O comportamento, nesses lugares, é mais livre. Quando uma criança diz palavrão, na cabeça do adulto vem a imagem dela enchendo a cara e tendo uma puta no colo. Ou sendo a puta de alguém. Nessas situações, grita-se o que se quer e o que se sente. Puta que pariu! Quando se está com uma criança, quer se fazer de todos os espaços dela espaços educativos. E educação, para crianças pequenas, é sobretudo educação moral, comportamental. Por isso quer que se evite o comportamento livre, desbragado, o palavrão ou o comportamentão. Mas as crianças obviamente querem se soltar. Além disso, elas querem se queixar, ao mesmo tempo que provocar, aqueles que lhes colocam as regras. Uma forma preferida, nossa, de nos divertirmos é atacarmos aquilo que quer nos segurar.

  2. Só entendo que independente de a criança ou o adulto queira relaxar moralmente com o uso de palavrões, o que não podemos se esquecer é da questão social, pois, se queremos uma sociedade que se respeite uns aos outros devemos ensinar principalmente para as crianças o domínio próprio, inclusive em relação a sua força de expressão. Infelizmente a nossa sociedade hoje tem se tornado muito egocêntrica em função desses discursos que acabam no final não dando bons resultados socialmente falando, pois, cada um se acha no direito de fazer o que quer com total desrespeito alheio. Por mais que você dê a pessoa o direito, se não souber usar, acaba subtraindo o direito do outro.

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