Como gira a roda da violência- ou tentando fazer com que a pessoa de direita compreenda

 

Somos uma sociedade de fraca sensibilidade para com o funcionamento da nação. Diferente dos EUA onde quem chegava na terra prometida ia pra ficar, sem cogitar a volta, na parte debaixo da América as coisas se deram de outra forma. Holandeses vieram, mas foram embora. Franceses também vieram, e também foram embora. Portugueses vieram, ficaram, mas na essência também foram embora – basta lembrar que a Família Real retornou para Portugal. Dessa forma, a ideia pela qual se formou nossa nação, e que ainda vigora na cabeça da elite, é a de que se o Brasil não der certo, eles irão embora. Dessa vez, para Miami e para a França.

Isso pode a princípio parecer besteira, mas não é. Esse componente na nossa formação nacional fez com que a nossa sensibilidade para com as questões nacionais se enfraquecesse. Para os americanos as coisas precisam funcionar, pois eles não tem saída. Para nós brasileiros até tentamos fazer as coisas funcionarem, mas se não der certo, vamos embora! Essa nossa sensibilidade enfraquecida vira e mexe aparece de forma mais clara nas áreas da segurança e da educação. Basta cair um helicóptero matando 4 policiais para que a população resolva se movimentar em torno da segurança. Como se no dia a dia não morressem policiais diariamente, e sangrassem ao infinito com baixos salários, condições precárias de trabalho e exposição de suas vidas. Na educação a mesma coisa. Foi preciso um maluco adentrar na escola de Realengo e matar uma dúzia de crianças para que a sociedade lembrasse que a escola existia. O Prefeito foi lá. O Governador foi lá. A Impressa foi. Os pais dos alunos que nunca vão, também foram. Até gente que não tinha filho naquela escola, resolveu aparecer por lá. Mas depois, a sensibilidade diminuiu e tudo foi a mesmice de sempre: professor ganhando 10 reais a hora-aula, escolas caindo aos pedaços, e aluno e pais dando na cara de todo mundo.

Nesse momento a sensibilidade da população voltou a ficar aguçada em torno da segurança pública. Em um país como o nosso, que possui a maior massa de analfabetos do mundo, com baixo consumo cultural, e escola pública precária a cinco décadas, começam a aparecer aquelas velhas tonteiras de sempre: “bandido bom é bandido morto” ou “Direitos Humanos são coisa de bandido”. Claro que esse tipo de coisa também aparece em países altamente alfabetizados, como EUA, França e Inglaterra. Porém, lá a discussão toma outro nível, sendo que um texto como esse meu é facilmente compreendido. Compreendê-lo não significa aceitá-lo como correto, mas sim poder argumentar de forma inteligente e inovadora, e não continuar feito papagaio repetindo os mesmos jargões (coisa que a esquerda também faz).

Tentei no texto anterior (http:http://filosofia.pro.br/jesus-era-da-turma-dos-direitos-humanos/) explicar o que são os Direitos Humanos. Em outro, mostrei como a questão da violência, em especial no Rio de Janeiro, é muito mais complexa do que parece (http:< http://filosofia.pro.br/quem-mata-a-policia-no-rio/>). Mas a direita é cabeça oca o suficiente para não entender frases simples, com palavras populares e explicações claras. Insisto então mais uma vez na tentativa de fugir do senso comum sobre a violência, e explicar como a coisa funciona no Rio de Janeiro.

Partamos do fato acontecido na Cidade de Deus: um helicóptero da PM cai durante uma operação na favela. Quatro policiais são mortos. Independente de ter sido ou não um abate a aeronave por parte dos traficantes, já tivemos outro episódio em solo carioca onde o helicóptero realmente foi abatido. A morte dos 4 policiais gerou indignação e revolta. Isso para a sociedade é normal. Até eu fiquei revoltado. Mas para o Estado não pode ser. O Estado não pode agir a partir da revolta de certas pessoas, e muito menos pautado no sentimento de vingança. O Estado deve agir de forma racional.

Sabendo desse sentimento de vingança entre boa parte da sociedade – o que volto a repetir, é normal – e também entre os policiais – aí sim há o problema – alertei que em pouco tempo o sentimento de vingança deixaria a casa das emoções e se efetivaria enquanto ação. Dito e feito, como diz minha eterna avó. Poucas horas depois apareceram os 7 corpos na mata da favela Cidade de Deus com marcas de execução. No popular, “para quem sabe ler, um pingo é uma letra”. Mas a questão não parou por aí. No dia seguinte começou a circular pelas redes sociais um vídeo onde policiais militares a bordo do novo “caveirão” entregam munição – ou até armas – para bandidos na favela do Cordovil, também no Rio de Janeiro. Rapidamente, uma pessoa com bom raciocínio lógico, reagiu dizendo que aquelas munições entregues por PMs aos bandidos podem ser utilizadas amanhã para matar mais policiais, e até derrubar helicópteros!

Para explicar como a roda da violência gira no Rio de Janeiro dessa vez não falarei dos Direitos Humanos. Já que a direita odeia tanto essa palavra, vou por outra via na tentativa de que abaixem a guarda e tenham um pouco de reflexão sobre o assunto. Em qualquer lugar do mundo com bons índices de violência, como Canadá, França, Chile e Argentina, policiais não morrem, mas também não matam. Quando a polícia mata, o bandido se vinga. E quando o bandido mata, a polícia se vinga. Dessa forma há um ciclo vicioso, e a roda da violência gira. É óbvio que o bandido não deixará de matar para cessar esse ciclo, mas a polícia precisa fazer isso. Só assim vamos frear essa guerra civil que vivemos atualmente.

Não estou aqui defendendo bandido. Fico triste e revoltado com a morte dos policiais. Justiça precisa ser feita. Mas é preciso compreender que matando bandidos, com a máxima “bandido bom é bandido morto”, policiais vão continuar morrendo. O problema não se resolverá. A única forma de parar isso tudo é quebrando o ciclo da violência, e essa atitude tem que vir por parte do Estado e da polícia. Pois é está, a polícia, que alimenta a violência no Rio de Janeiro. E faz isso de várias formas: executando bandidos; atuando como milícia; fornecendo armas para o tráfico; etc. Não é preciso lembrar o vídeo do carro da PM fazendo escolta dos milicianos. Ou é preciso? É preciso lembrar do “caveirão” transportando um chefe do tráfico na Zona Oeste para que o mesmo reconquistasse o território? Creio que não.

A roda da violência gira rápido. Cada vez mais rápido. Atropela cidadãos, policiais, bandidos, crianças, negros… ninguém escapa. A não ser claro, o filho de papai da Zona Sul que nunca é atingido por bala perdida. Precisamos reverter esse quadro, ou vamos continuar com alguns comemorando a morte dos bandidos, e com outros chorando a morte de policiais. Eu prefiro pensar de forma inteligente numa saída. É isso.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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2 thoughts on “Como gira a roda da violência- ou tentando fazer com que a pessoa de direita compreenda

  1. Texto maravilhoso de uma compreensão simples, li também o texto Jesus era do time dos direitos humanos, muito bom.precisamos de ler mais textos como estes com embasamento teórico. Parabéns!

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