Como ler Wittgenstein sem ser olavete

Se agora os semianalfabetos resolveram falar até de Wittgenstein, algo que sinceramente eu nunca imaginei que aconteceria, pois extrapola todos os limites do bom senso, cabe a nós explicarmos e darmos um norte para a conversa pública sobre o pensamento de Wittgenstein. Do contrário, as impressões das massas sobre os grandes pensadores ficarão nubladas por esse conspiracionismo sem conspiração ou por esse mundo monotemático. Neste momento, o anti-intelectualismo, que está espreitando a nossa nação, ganha forças e a cada explicação tosca de grandes clássicos e a cada confusão, a opinião pública fica em rebuliço e tende a acatar o lado mais idiota. Mas vamos ao que interessa.

Uma boa frase para começar a se aventurar pelo pensamento deste filósofo é a seguinte: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. Isto significa que a linguagem deve ser limitada conforme os limites do meu mundo. Mas quais são os limites do meu mundo? Quando Wittgenstein fala de mundo, este quer dizer o mundo factual, os fatos que ocorrem no mundo e que portanto possuem referência. Isto é o mundo de Wittgenstein. Ou seja, o nosso enunciar e o nosso falar não devem tratar daquilo que não possua referência, portanto, daquilo que não está circunscrito nos limites do nosso mundo. Mas também a censura wittgensteiniana não é direcionada a toda fala que ultrapassa os limites do nosso mundo. Em outras palavras, Wittgenstein não se preocupa com o uso comum e corriqueiro que as massas fazem de nomes como: moralidade, consciência, alma etc. Este grande pensador se preocupou justamente em como a história da filosofia arrancou esses termos do uso popular e os inflou, trazendo enormes problemas para a história do pensamento. Richard Rorty desenhou esse problema como se os filósofos se assemelhasse a caças fantasmas, perseguindo as próprias quimeras que estes mesmos alimentaram.

Wittgenstein é autor de um excelente corpo de aforismos, outro ótimo é o seguinte: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”. Este belo aforismo é praticamente uma reafirmação do primeiro que foi posto. Sobre o que não se pode falar e por que não se pode? Somente pode-se falar sobre aquilo que possui condições de verdade, ou seja, formalizando um pouco esta ideia: Seja p uma proposição, se eu conheço em quais condições p é verdadeira e em quais condições p é falsa, então eu posso falar sobre p. Do contrário, deve-se calar. Trazendo para um problema concreto, considere a seguinte sentença: uma ação é boa quando produz o maior prazer possível para maioria.  Em quais condições essa sentença é verdadeira? Ou seja, o que deve acontecer no mundo para que torne verdadeira a sentença “uma ação é boa quando produz o maior prazer possível para maioria”?. Percebe como devemos nos calar neste caso, se formos seguir o que Wittgenstein nos propôs? Pois este tipo de sentença não há condições de verdade e, portanto, as minhas crenças e meus pensamentos podem ir para qualquer lugar. Mais uma vez, Wittgenstein não espera o silêncio do falar cotidiano destas proposições fantasmagóricas, este, sim, almeja que os longos problemas filosóficos se dissolvam, por meio deste silêncio. Não erroneamente Wittgenstein foi acusado de não resolver os problemas “clássicos” da filosofia e sim desviá-los. Mas foi exatamente esse seu intento, Wittgenstein não respondeu o que era a moralidade, o que era o bem, o que era o conhecimento, o que era a coisa em si ou qual era o fim da História. Este filósofo simplesmente equacionou estes problemas como sendo derivados de um mau uso da nossa linguagem, pois estes problemas estão além dos limites do nosso mundo.

Wittgenstein foi um dos grandes pensadores do século XX e é de enorme prazer lê-lo. Claro que para isto é pré-requisito não ser bolsonarista e nem olavete. Todas estas noções expostas aqui são originárias de Wittgenstein: a existência do bom uso e do mau uso da linguagem, a suspeita de que a linguagem seja maior do que o nosso mundo e por isso mesmo deve ser limitada por este, o significado de uma sentença como sua condição de verdade entre outras noções. É um grande deleite e privilégio poder compreender o pensamento de Wittgenstein. Mas claro, está para além dos limites de todos discípulos do Olavismo.

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4 thoughts on “Como ler Wittgenstein sem ser olavete

  1. Eu acho interessante o nível de contradição das pessoas que você cita, uma vez que Olavo de Carvalho cita Wittgeinstein como um “pensador obscuro” e que ele poderia ser “substituído” por pensadores como Jung. Então tá, né?!

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