Como o psicólogo trata a “cura gay”

E se aparece no consultório um paciente dizendo que quer “deixar de ser gay”? O serviço do psicólogo não alcança isso, pois não há conhecimento científico disponível. E o serviço do psicólogo não pode se dar a isso, moralmente falando.

Um aspecto da nossa moralidade é a de que a maior liberdade é a da própria alma. O psicólogo entra aí com a proposta de livrar a alma do que a constrange. Isso também tem a ver com a ideia de aceitar quem se é.

Mas, e se o paciente disser que ele “não se reconhece como gay”, ele não precisaria livrar-se disso?

Do ponto de vista de uma clínica psicológica que se preocupe com conflitos psíquicos, há uma diferença entre queixa e demanda. Queixa é a reclamação com que chega o paciente, e que o faz procurar ajuda. Demanda é a questão desconhecida dele, por ser profunda. Diz respeito a quem ele é, o que quer ser e o que o faz sofrer. É conhecida após alguma investigação clínica.

Considerando aquele paciente do exemplo, um homem que faça sexo com homens, e que isso ocorra em decorrência de algum conflito nessa psicologia profunda, à medida em que o conflito for sendo conhecido e, consequentemente, resolvido, o homem vai alterando seu comportamento. Essa alteração pode ser da prática homossexual ou não.

O que importa ao psicólogo clínico, nesta abordagem, é resolver os conflitos. No senso comum, esse processo é chamado de auto-conhecimento, ele permite ao homem fazer escolhas, na vida, ou seja, não ser um “escravo de si mesmo”.

Há, também, a clínica psicológica que trata de transtornos psiquiátricos. Fobias, pânico, depressão, etc, são transtornos estudados e catalogados, e pacientes chegam ao consultório de psiquiatras e psicologos para tratá-los. A terapia, nestes casos, é o que comumente se considera terapia: tratamento para resolver um problema.

A abordagem do autoconhecimento é a mais estranha à intenção de se encaixar alguém em algum padrão. A abordagem dos transtornos poderia ser acusada disso, se o paciente realmente não sofresse com um transtorno.

Agora, homossexualidade não é considerada doença psiquiátrica ou psicológica. A clínica do autoconhecimento tratará o homem que chega com aquela queixa como um ser que descobrirá outras questões sobre si mesmo, e mudará seu foco de atenção.

E a clínica dos transtornos não assumirá o tratamento de qualquer homossexualidade, pois não há o que tratar. Bem, se há o que tratar, no paciente do meu exemplo, pode ser a ansiedade que ele apresenta.

 

Gostou? Compartilhe:

2 thoughts on “Como o psicólogo trata a “cura gay”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *