Como pensar a “violência urbana”?

Assaltos, à mão armada ou não; furtos; invasões, também armadas ou não, a domicílios, a fim de se realizar assaltos; sequestros e assassinatos de indivíduos com quem o autor destes crimes não possui relação pessoal: em nossa linguagem comum e nos meios de comunicação, formas de comunicação, aliás, cada vez mais integradas, aqueles casos recebem o nome de “violência urbana”. (Esqueci de mencionar algum?).

Também em nossas comunicações, cada notícia a respeito destes crime suscita, em geral, duas posições antagônicas: “bandido bom é bandido morto” e “o indivíduo comete crimes empurrado por suas péssimas condições de vida.” O segundo argumento entre nós já foi mais forte: nos anos 80, quando a face atual da miséria urbana (as favelas e os moradores de rua) passou a ser mais notada, falávamos em fome, analfabetismo, etc. Foi o tempo em que o PT elevou-se junto às classes médias esclarecidas. Hoje, porém, junto da grande rejeição a este partido, progressivamente ocorre a perda de força do discurso “social”. Isso ocorre por descrédito dos ideários políticos modernos (inclusive do liberalismo clássico!), acrescida de certa banalização da miséria.

A maior parte da população não se posiciona politicamente a partir de ideologias. O posicionamento delas tem sido cada vez mais pragmático, o que é ótimo. Dentro de um pensamento pragmático, pede-se mais segurança. Mas com um pensamento empobrecido, a solução que se alcança é “bandido bom é bandido morto”. E o discurso que aponta a miséria e o desespero social aparece como uma reação a ele. Alunos e professores universitários são os que mais o apresentam, para um olhar às vezes discordante, do restante da sociedade.

Já os que dizem “bandido bom é bandido morto” dificilmente aceitariam eles mesmos pegarem em uma arma e matarem o “bandido”. Eles querem que alguém faça isso por eles. Mas, é lógico, para eles o autor dessa execução deve ser preferencialmente justiceiros, e não o Estado. Os defensores daquela frase, em sua maioria, não gostariam de viver num mundo em que o assassinato seja lei. É preferível que isso seja feito por um encapuzado, alguém que eu não conheça, mas que me conheça apenas o necessário para saber que eu não sou bandido. Em lugares da Baixada Fluminense, há décadas grupos armados exercem esse “jeitinho brasileiro de matar”, e oferecem aos moradores uma “sensação de proteção”.

Há muitas formas de violência ou mau uso da agressividade. Uma condição de miséria é possibilitada por uma ou mais causas, e gera uma ou mais consequências. No discurso público, reduzimos toda violência à urbana, e toda causação e solução aos dois lados: “bandido bom é bandido morto” ou “o miserável é resultado do capitalismo, e o crime que ele comete é uma consequência inevitável. Mais do que isso: é uma revolta.” A presença da miséria, os índices de criminalidade e nossa dificuldade em formular uma demanda política pragmática nos faz retomar ideias socialistas e liberais, mas não mais como idearios e, sim, como ideologias.

Ideologias são conjuntos compactos de ideias que, ao serem utilizadas, matam a capacidade de pensar. O socialismo não precisa servir de inspiração para governos que se consideram acima das liberdades individuais. O liberalismo não é mais apenas o de John Locke, mas também o de John Rawls. Uma inspiração socialista vigente em contextos de sistemas capitalistas faz seus governos serem sociais, atentarem-se às necessidades daqueles mais empobrecidos. Uma ideologia socialista cria uma demonização do capitalismo, e a defesa de coisas invariavelmente piores. Por outro lado, o liberalismo, no maior país capitalista e liberal do mundo, os EUA, atualmente é entendido junto da ideia de justiça: nos anos 70, o filósofo político americano John Rawls propôs que os grupos social e economicamente desiguais deveriam receber ajudas distintas do governo, adequadas a que eles tenham começos equivalentes, com relação ao restante da sociedade, na corrida por estudo, trabalho, salários, etc. Esta filosofia marcou a política daquele país, e também a de outros paises.

Pessoas que, hoje, não pensam por ideologias, mantém, sem contradição, a ideia de que devemos nos esforçar por nossos bens, e de que temos certo mérito por nossas conquistas, mas que este mérito não é total porque há muita gente que nem ao menos pode começar do mesmo ponto do que os demais, além do inaceitável sofrimento e miséria, no mundo.

Aquelas frases-feitas forçam a que se pense estas questões cortadas ao meio, e que ou se defenda um lado, ou outro. O lado adversário parece desonesto ou burro, e assim não se vê que o próprio lado também não consegue ir além do slogan e da propaganda que não ajuda efetivamente as pessoas. O crítico à ideia de que a pobreza gera criminosos deixa desarmado o que pensa pelo slogan de esquerda. O crítico à ideia expressa naquela frase do “bandido morto”, deixa o defensor dela sem muito o que dizer além de dizer que um dia o crítico sofrerá uma violência e chamará a policia. Martelando uma mesma frase, o falante mostra uma experiência repetitiva e infeliz, e que ele deixa de perceber as nuances das próprias emoções e também do mundo. Determinada experiência se torna absoluta, e a visão geral, também.

Pensar em violência urbana deve levar à percepção do lugar onde situamos nosso medo, impotências e reações ideologizadas. É dar um passo atrás no uso dessa expressão, e descobrir porque se a utiliza como canalizador da própria sensibilidade e anseis. Este seria um real pensamento, sobre questões do mundo e também pessoais. Atentados contra a vida: insegurança, impotência, desejo de vingança, aposta num salvador. Miséria; desespero; desumanização; perdão; adrenalina e poder. Muitos aspectos compõem a realidade. Para transitar por eles, entendendo e tendo alguma chance de fazer o bem, é preciso não partir de slogans ou razões pré-prontas e fáceis.

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