Depressão e felicidade

Sorrir aumenta a longevidade, felicidade cura câncer, riso fortalece o sistema imunológico, estes e outros inúmeros benefícios, dizem as pesquisas, são consequências da felicidade. É conhecido e tornado banal na nossa cultura tal ideal, frases como “eu só quero ser feliz”, “tudo que importa é ser feliz” e variações são amplamente difundidas como alguma espécie de “filosofia de vida”. A formula é simples: adicione felicidade e todo o resto a acompanha. Seria mesmo assim tão simples?

Felicidade não é a alegria eufórica causada por drogas, também não é a felicidade em consequência de alguma conquista, antes é algo de mais duradouro, um estado perene de espírito. Não é fácil conquistar tal estado, muito mais difícil é mantê-lo. Não se pode, então, supor que devemos buscar felicidade, pois tal busca resultaria apenas em frustração. Tal “filosofia de vida”, como todas as outras, não passa de generalizações banais.

Não se pode adicionar felicidade como numa fórmula para ser feliz, isso é por si só inconcebível. Da mesma forma não se pode esperar que a perseguindo vá se chegar em tal estado, pois seria abrir mão de tudo o que eventualmente poderia resultar em tristeza para viver e se preservar em um ambiente presumidamente intocável pelos maus afetos. Fácil concluir que assim vivendo não se chegaria a felicidade, mas antes alimentaria um medo do mundo por conta de pôr tal sentimento como o mais alto ideal.

Não há fórmula mágica, felicidade não deve ser tratada como ideal a qual perseguiremos a todo custo, muito menos como ingrediente de algo maior. Felicidade não é uma bola de neve que acarreta em grande júbilo, não torna tudo em paraíso. E mesmo que tornasse, cabe perguntar, até que ponto iriamos para sermos felizes?

É capaz, como diz Contardo Calligaris, que a felicidade seja mesmo ao menos uma das causas da depressão nesse mundo contemporâneo. De minha parte percebo que sou muito mais feliz (ou menos triste) ao me desprender e desprezar tais mitos sobre a felicidade. Não se permitir sentir tristeza é, quem sabe, a causa das ansiedades e desesperos em muitos que frequentam psiquiatras e tomam antidepressivos.

De toda forma, fica a pergunta; até que ponto iriamos para sermos felizes? Ao ponto de termos uma existência simplória, como diziam os românticos sobre os mais felizes? Ao ponto de resignarmos nossa pessoalidade, o que nos afeta e grande parte do que nós somos? Ser feliz vale a pena? Ou antes não seria melhor aprender a lidar consigo próprio, conhecer a si mesmo e aceitar o processo de ponderação constante, ao invés de amaldiçoar grande parte de si?

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3 thoughts on “Depressão e felicidade

  1. Porque temos que ser felizes? Porque temos que buscar a felicidade. Já sabemos que o conceito “felicidade” no mundo contemporâneo não tem o mesmo significado de que no mundo antigo, por exemplo. Mas porque temos que buscar a felicidade. Eis uma boa questão!

    1. Que temos de buscar algo, sim. Damos sentido a vida, queremos nos tornar melhores, e no processo aliviar o sofrimento. Mas isso é a felicidade de que falam? Creio que não. Se o que nos motiva é ser feliz, não criaríamos problema, não complicaríamos a vida, não iriamos em busca de algo mais.

  2. Interessante. Me lembrou um ensaio sobre a condição humana que fala sobre Aristóteles em que a condição do homem não é viver em grupo, pois aaté os bichos vivem e sim a busca por viver bem, pela felicidade. Porra Aurelio, me fez lembrar isso. É um tema legal pra ser analisado nos diversos contextos. Gostei.

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