Diálogo sobre a verdade

ELE: Verdade, disse, em sinal de concordância. Era madrugada, mas ele estava sem sono, passava os olhos pela lista de contatos, imaginando o que cada um fazia naquele momento. Costumava pensar que era melhor se bastar, muito melhor do que falar com outros e conjecturar à toa sobre coisas importantes. Mas não praticava tal crença, e, para se consolar, preferia pensar que falar levianamente é o primeiro passo para atingir um discurso verdadeiro. Engraçado ter sido essa a palavra que acabara de teclar. Não sabia o que era a verdade, mas sentia que não poderia viver sem ela, que saberia reconhece-la de algum modo caso a encontrasse. Sabia que falava, entretanto, muitas mentiras, e se contentava em apagar os históricos das conversas, esquecer das palavras proferidas e fingir que elas não tinham a importância devida.

ELA: Você a viu por aí?, perguntou ironicamente. Ela estava com sono, mas a ansiedade a impedia de dormir. Como consolo teve a sorte de conhecer a pessoa com a qual falava. Com ele, poderia falar sobre coisas aleatórias, mas sempre dividiriam alguma intimidade criada ali, do outro lado da tela. É que cedo tinham reconhecido um no outro outros, que, fossem quaisquer diferenças, compartilhariam o comum apreço pela abstração.

ELE: Não, nunca a vi, respondeu apressadamente, se arrependendo logo em seguida.

ELA: É verdade que não a viu?, perguntou novamente, esboçando um meio sorriso, quase feliz por ainda não ter ido dormir.

ELE: É, disse ruborizando.

ELA: Que estranho falarmos pressupondo o que não vemos, o que não conhecemos.

ELE: Acho que isso a torna necessária.

ELA: Em alguns casos, sim, mas em outros são tão relativos.

ELE: Quer dizer que a verdade é necessária ao discurso, mas relativa a quem profere?

ELA: Sim, mas ela é necessária por si?

ELE: Não sei, creio que sim.

ELA: Eu também não abro mão. Ademais, admitir que não existe atrairia muitos problemas.

ELE: Quais?

ELA: Para começar, ficaria difícil falar sobre qualquer coisa.

ELE: Sim, mas há quem consiga viver com isso.

ELA: De fato, mas num mundo com tantas verdades relativas, tem de haver algo que as produza.

ELE: Concordo, mas como percepções tão diferentes da mesma verdade podem ser produzidas pela mesma coisa?

ELA: Tem a ver com como as coisas são percebidas. Por exemplo, você percebe por um ângulo um objeto, e eu por outro. Seu formato, sua cor, tudo difere segundo a percepção, a incidência de luz, talvez até mesmo a diferença entre nossos olhos.

ELE: Entendo. Mas dado os mesmos padrões, submetido ao mesmo teste, todos não teriam a mesma percepção, e essa não seria efetivamente o que gera as percepções?

ELA: Não sei, creio que idealmente sim, mas é impossível de todo.

ELE: Eu já penso que, se as percepções têm de ver com o percebido, as percepções tão contrárias são paradoxais. Como algo pode produzir sua própria imagem e seu oposto ao mesmo tempo? As coisas são e não são ao mesmo tempo?

ELA: Entendo.

ELE: Por exemplo, se ambos percebemos branco em tons diferentes, a brancura continua existindo, e de fato ela existe no mundo, assim pensamos. Mas, há quem perceba como de outra cor, há quem não perceba, há animais que percebem tudo em preto em branco. O que de fato existe? Qual substrato real do mundo e o que podemos conhecer dele?

ELA: Eu já creio que vivemos como numa grande bolha, longe de qualquer verdade, tudo é uma grande teoria, grandes suposições, grandes farsas. Cada um chama o que quer de verdade, cada um tem a sua e em cada pensamento tem sua verdade.

ELE: Mas, e a verdade que todos compartilhamos, e o mundo que todos habitamos, a bolha maior em que todos estamos, o que podemos falar sobre ela?

ELA: Nada. É triste, mas pelo menos podemos sonhar. Acho que podemos viver em realidades possíveis, e de fato vivemos a maior parte do tempo, pulamos de bolha em bolha.

ELE: Existe bolhas mais próximas dessa verdade?

ELA: Suponho que sim, mas nunca saberemos. Talvez o problema esteja no significado, deveríamos significar a verdade não como expressão da realidade do mundo, mas talvez como aquela necessária para nós, e isso é tudo que ela significa.

ELE: Entendo, mas isso não resolve o paradoxo de admitir que as coisas que são e não são.

ELA: Verdade, mas esse paradoxo só é enquanto significamos como tal, percebe?

ELE: Sim, mas é difícil não significar tão paradoxalmente. É difícil aceitar que uma coisa produz a mim uma percepção, esta considero verdadeira, e a outro produz outra, contrária à minha. Só um de nós poderia estar com a verdade, logicamente. Mas, em nossas bolhas, ambos estamos certos.

ELA: Sim, mas pelo menos podemos pular de bolha em bolha.

ELE: Verdade.

Estudante de graduação em Filosofia na UFPB e membro do CEFA.
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