Diferenças educacionais

Nas salas de aula de hoje, o professor fala e escreve a lição e os alunos ouvem, tiram as dúvidas e copiam. Provas escritas são a forma com que avalia a aprendizagem.

No livro “O Método Pedagógico dos Jesuítas”, Padre Leonel Franca conta a história e a organização dos colégios jesuítas na europa e no Brasil. No livro ainda há a apresentação do Ratio Studiorum, o documento por meio do qual procurava-se dar uma unidade de ideias e métodos para todos os participantes destes colégios – milhares de pessoas, já a partir do século XVI.

Aos professores era obrigatório não apenas o aprendizado sobre a própria alma, de modo que suas paixões fossem submetidas à razão, mas também a aquisição de cultura teológica, filosófica e científica. O professor ainda deveria dominar a boa expressão e métodos pedagógicos. Diante do aluno, ele deveria ser, além de condutor da aprendizagem, uma figura paternal, sem ser familial. E deveria ter bom humor.

A sala era organizada como uma sociedade, com cada aluno tendo uma função no trabalho com um texto. As funções eram atribuídas e móveis, pelo mérito. O senso de competição no desempenho não criava inimizades, mas parcerias de disputas e desenvolvimento.

Já no século XVIII formara-se, em Paris, uma universitas inspirada na Academia platônica. Alunos e professores formavam uma comunidade à parte da ingerência civil. Nela, Tomás de Aquino terá suas quaestio disputata, questões disputadas, apresentação e confrontação metódica de teses.

Tomás apresentava seus próprios argumentos e os dos adversários com a mesma clareza. Havia quem achasse que eram deles os pontos contrários que ele recolhia e apresentava, a fim de contra-argumentar! Não é preciso dizer que esses diálogos também inspiravam-se em Platão.

Nesses cenários educativos a sala de aula funcionava como uma sociedade. Todos ali embum grupo, parceria, grande banda.

Padre Leonel Franca diz da importância do desenvolvimento da fala do aluno, pois era através dela que falava (e era conhecido) o espírito que aprendia. O humor, ou presença de espírito, do professor era a sua disponibilidade para essa parceria.

Os tempos modernos são subjetivados. Intrapsiquicamente o aluno deve resolver suas emoções e lidar com o que o professor fala para ele. Não se faz parte de uma sociedade. Na escola jesuíta a alma ainda era tratada com objetividade: tinha-se clareza e acesso curativo às suas afecções. Com isso, o aluno era efetivamente reabilitado para a aprendizagem. Agora, quantos alunos não falam só para os colegas, à boca miúda, as suas dificuldades?

Como mônadas psíquicas os alunos devem lidar com os mecanismos das suas aprendizagens. Nos tempos mais recentes, é como “mini especialistas, por experiência própria” que eles são autorizados a falarem sobre qualquer assunto, de qualquer maneira, sem qualquer interferência. Pois, se somos habitantes de uma caixa preta subjetiva, que causa alegria ou sofrimento, ânimo ou depressão, sucesso e fracasso, a opinião, seja ela qual for, deve ser tratada como uma jóia frágil. Teme-se quebrar o cristal do aluno.

Estão bem distantes de nós coisas como disputa, aperfeiçoamento intelectual e expressivo e orgulho, conhecimento e condução da alma, sociedade, participação e mérito. Somos delicados, solitários, inseguros,sofridos, ruins de expressão e burrinhos. Professores e alunos.

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