Diga na minha cara

Entrei no trem com uma bíblia embaixo do braço. Abri e comecei a ler. Para mim mesmo. Apesar de alguns olhares, não li para mais ninguém. Eu tenho onde guardar aquelas falas. Não estou farto de mim mesmo, que fica me dizendo coisas.

Farto de si mesmo é o fanático do Cioran. Ele é o infernizado que se dedica a infernizar os outros, dizendo o que promete ser o bem. Não quero aconselhar os outros na rua. Não quero ser o início e o centro dos acontecimentos.

Na bíblia está que a voz do povo é a voz de Deus. Mas é a voz das falas dos que mantém as leis de Deus em seu dia a dia. Não é a voz dos que exortam. Os que muito falam até beiram a insensatez, e atrapalham o homem justo.

Agostinho confessou-se, quis dirigir sua fala diretamente a Deus como quem envia um hálito a quem um dia lhe deu o hálito, e que lhe deu seu “eu interior”, eu verdadeiro porque divino. Agostinho se sentia intimamente desconectado de Deus.

Talvez a reconexão com Deus, ou com qualquer outro parceiro fundamental, com o qual perdeu-se intimidade, seja algo a ser feito na intimidade da fala consigo mesmo e na fala com aquele que está a curta distância, na fronteira dentro e fora, sentindo o seu hálito e dando o hálito dele para você sentir.

As pessoas buscam parcerias de vida, mas não cuidam do próprio hálito. Como doar e receber o ar da vida, tendo o hálito podre? Ou tendo hálito nenhum? Por isso há os que falam aos muitos, que permanecem à distância. Não querem ninguém aqui, com elas mesmas. Sua fala próxima não é boa, sabem. Ou não têm fala nenhuma.

Quem não gostaria de fazer uma acareação (ficar cara a cara) com famosos mentirosos? Só os descarados.

 

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