Embrutecimento

Quando eu era criança, gostava de ver o Rambo na TV. Na TV. Aquelas explosões e tiros eram legais, mas era importante que não ocorressem aqui. Nem perto de ninguém. Certamente era diferente a experiência de quem morava em áreas de confronto armado, no Rio. Mas acho que essa experiencia era mais próxima do trauma, do incompreensível. A violência da TV era espetacular.

Como mercadorias que dançam na nossa frente e nos fazem desejar, como disse Debord, o boneco do Rambo me fazia imaginar explosões e perigos. O menino da favela também queria isso. Imaginar a violência, não vivê-la.

Paulo Ghiraldelli Jr explica a evolução da sociedade do espetáculo de Debord (https://z-p3-scontent.fsdu4-1.fna.fbcdn.net/v/t42.9040-29/10000000_814742698664177_5612407101973331968_n.mp4?efg=eyJybHIiOjEwMzEsInJsYSI6NDA5NiwidmVuY29kZV90YWciOiJzZCJ9&oh=20364d6a5f3e2d3d39322f6851671d73&oe=5974F9C8), que a princípio é o das mercadorias que dançam, para o das marcas, que também dançam. Isso completa a limpeza de cada coisa do seu valor de uso, de utilidade, fazendo-a se abstrair completamente, e a assumir um valor de troca, de equivalência universal.

Com o fim das grandes narrativas, e o fim das referências tradicionais de vida, ambos fenômenos da modernidade, o sentido da vida passa a estar no consumo. Eu sou aquele que consome, esse é o meu horizonte. Não há mais o homem com subjetividade profunda, freudiana. Ocorre, então, um terceiro momento na sociedade do espetáculo, que é a da assuncão, pelos indivíduos, de marcas como identidades.

Uma marca, com uma certa narrativa muito simples acoplada, é o que tatuo em mim. Eu sou minhas tatuagens, as marcas que fiz em mim. Sou a série que meus olhos vêem, e que é meu assunto favorito (o único que tenho). Minhas histórias são essas.

Isso parece ser uma longa digressão do assunto que abriu este texto. Mas quero mesmo falar sobre aqueles meninos, que hoje cresceram, e que querem ser heróis de ação. Querem ser soldados do tráfico, do roubo, da polícia ou da sociedade, da qual emerge o indivíduo que acredita que há guerra, e que é preciso guerreiros, e toma essa marca como identidade.

Eu nunca quis ser o Rambo, de verdade. E hoje quero meus dias sem ação. Quero fazer meu trabalho, pegar meu livro, pensar, escrever, esperar comentários e conversar com eles. Esse é o meu exercício, e é como acho que posso ajudar os outros. É o que desejo para os outros. Uma atividade que, como essa, que envolva prática de algo, reflexão e desenvolvimento de si mesmo, e benefícios para os outros, é boa para todos. Ela requer um dia a dia sem sobressaltos.

Sobressaltos fazem o indivíduo preocupar-se com as coisas relativas ao corpo, e não com as do pensamento (no Fédon, Sócrates distingue entre filosomatos e filosofia). A escassez subjetiva faz o indivíduo querer fazer da sua vida, e a de outros, um filme de ação. Eu quero que a ação esteja na TV, para que possamos vê-la e dela tomar distância. Quero que os meninos de ontem e de hoje possam ter alguma paz, distância em relação às imagens. Algum tempo para a reflexão, para ir além do imediatismo.

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3 thoughts on “Embrutecimento

  1. Tiago
    Os meninos que crescem e tornan se ” Rambos” do tráfico, fazem isso pois o traficante é o cara que oferece emprego, dinheiro rápido e .. sobrevivência para a familia deles. O traficante ocupa, para esses meninos , o lugar que sua boa familia e seu lugar social adquirido de berço, ocuparam em sua vida. Essa não é nem de longe uma questão de filosofia e psicologia meu caro, essa é uma questão econômica e social.Enquanto você pode se ocupar tranquilamente com Sócrates, Platão, Foucault, Freud… esses caras estão pensando em como irão sobreviver esse mês…. Chega a ser covardia comparar sua doce infância com a infância de outros homens que não tiveram como você, a oportunidade de nascer em berço esplêndido e plácido repouso.

    1. Úrsula, todos têm uma expectativa de usufruir de coisas. Mesmo os que não as têm, lidam com imagens e a própria identidade. Você está acreditando que há miséria total, e que vivemos em guerra. Com a sua forma de ver as coisas, a metralhadora tem mesmo que estar na mão das pessoas.

    2. Tiago, bom dia.
      Vc está certo em sua explanação. A dura realidade dos meninos da periferia não dá espaço para dotes filosóficos. Porém, seguindo a remissa desce blog, o Thiago Ricardo de Matto assim a seguiu. Teceu seus comentários baseados nisso e não há nada de errado.
      Caso assim fosse, o padre, o pastor, o médicos e outros profissionais diversos não poderiam tecer suas opiniões.
      Saiba que a realidade é subjetiva, cabe a cada indivíduo enxergá-la ao seu modo. Assim é para as opiniões alheias.
      Sabemos que o problema do meninos do tráfico é uma questão sócio histórico econômica, vc está certo, reitero, mas mesmo assim cabe a todos tecer suas críticas sem serem dignos de retalhações.

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