Enfim, sacerdócio! – uma História do Magistério no Brasil

O título é bom. Daria um bom livro. Mas por enquanto será apenas um texto, um breve texto para preencher lacunas no vazio interno de muitos professores. Muitos tentam entender, e ficam impacientes diante da situação. Outros têm respostas que na maioria das vezes são dadas pelo senso comum, satisfazendo-se momentaneamente. Mas a questão continua no ar, e é cada vez mais atual no Brasil: afinal, porque os professores ganham tão pouco no Brasil?

Vejam, a questão não é econômica, e tão pouco ideológica. É histórica. Eu explico.

O baixo salário do professor no Brasil não está relacionado a questões econômicas. Primeiro que não somos mais um país pobre. O Brasil é a 8ª economia do mundo, com um PIB maior que a maioria dos países europeus. Segundo que poderíamos até dizer que apesar de sermos um país com uma grande economia, o Estado não tem recursos suficientes, mas isso não é verdade. Nossa arrecadação de impostos bate a casa dos 40% da riqueza, ou seja, o governo arrecada trilhões em impostos que deveriam ser revertidos em políticos públicos. E por último, os recursos empregados hoje na educação são muito maiores do que no passado, então da mesma forma que a rede de ensino cresceu, os recursos aumentaram – a tese de Dermeval Saviani está errada.

Outra explicação simplista tem relação com questões ideológicas. E aqui vou expor apenas a tese da esquerda, porque a da direita é tão infantil que nem merece ser exposta. Segundo o senso comum da esquerda, o professor no Brasil ganha pouco porque “se o Estado investigar em educação, os atuais governantes não se reelegem”. Isso a princípio pode até parecer correto, mas se analisarmos empiricamente tal tese não se sustenta. Não se sustenta basicamente porque um povo altamente escolarizado não é sinônimo de um povo que eleja bons candidatos. Basta olharmos os exemplos internacionais, onde países altamente escolarizados como EUA, Itália e Rússia elegem coisa do tipo Donald Trump (maluco de direita), Silvio Berlusconi (abusador de menores), e Vladimir Putin (perseguidor de gays).

Mas então, você deve estar se perguntando, “porque então os professores ganham mal no Brasil?” A minha tese para isso vai por um percurso histórico. Vejamos.

O ofício de educar começou nessa parte debaixo dos trópicos com os padres Jesuítas, isso há quinhentos anos. Ora bolas, pode parecer besteira, mas esse início foi determinante pra gente. Não que já tivéssemos um destino traçado, ou alguma força transcendental que nos amarraria a esse começo. Mas sim pelo fato de que retornamos onde tudo começou. Ou seja, no sacerdócio.

Nossos primeiros professores foram sacerdotes, os padres Jesuítas. Atualmente poucas escolas confessionais católicas ainda funcionam no Brasil, restringindo e muito o número de padres que lecionam. Mas nossos professores ainda são sacerdotes. Isso porque nossa sociedade resgatou essa memória histórica e passou a tomar o magistério como uma questão sacerdotal. Isso inclusive no próprio seio da categoria se tornou possível de ser verificado empiricamente. Basta você perguntar aos seus colegas de trabalho quantos crêem ser necessário ter o “DOM” e a “VOCAÇÃO” para ser professor! Mais de 75% vão dizer que sim. É preciso ter dom e vocação. Haverá inclusive aqueles que irão além e dirão que o problema da educação no Brasil atual é a falta de vocação das pessoas para o magistério. Pimba. É isso!

Você agora tem a resposta do porque dos salários dos professores brasileiros serem tão baixos. O próprio jornalista da rede globo, Alexandre Garcia, disse isso em rede nacional em um jornal das manhãs de nossa TV: “as pessoas nascem professor”. Milhares de professores aplaudiram Garcia. Todos os dias o professorado continua a compartilhar essa fala nas redes sócias. É justamente esse tipo de pensamento que transformar o magistério no sacerdócio, o oposto de uma profissão. Ninguém nasce médico, as pessoas se formam em medicina. Então é preciso bons salários, carreira atraente, e condições de trabalho adequadas para que se atraiam os melhores para a profissão e se melhora a qualidade da saúde no Brasil. Mas o magistério, ah o magistério, esse não precisa disso, afinal, para quem bons salários, carreira atraente, e condições dignas de trabalho, se as pessoas já nascem com o destino de serem professores. Não vai ser preciso atrair ninguém!

Infelizmente perdemos essa batalha para os Jesuítas. O magistério deixou de ser profissão o Brasil e se tornou sacerdócio. E isso não tem mais volta.

Licenciado em História pela UFRuralRJ e Especialista em Ensino de História pelo Colégio Federal Pedro II. Professor de História da rede pública no Rio de Janeiro. Pesquisa história antiga, especificamente Jesus Histórico, judaísmo, Judeia Romana e Cristianismo Primitivo.

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