O que faz da esquerda, direita? Ou: Pondé e Karnal vão ao mesmo cabeleireiro

Há quem acredite em um mundo melhor. Muitos não só acreditam, efetivamente lutam por isso. Nossa sociedade, que agora já goza das possibilidades que o amplo acesso às mídias oferece, tem suas ideias políticas sintetizadas nos ditos intelectuais de mídia. Uma página no Facebook assemelha-se, sem exagero, a uma nova Ágora com seus Pondés e Karnais.

E o sonho por um mundo melhor? Como se dá nisso tudo? Como ele lida com a careca dos dois últimos?

Há quem não só acredite, mas lute por um mundo pior. Não só terroristas e tiranos históricos! Toda democracia tem seus grupos de magoados e ressentidos que facilmente caem na política e nas ações fascistoides. Luiz Felipe Pondé diz não ser este o seu caso. Longe disso! Mas se tem algo pelo qual ele se diz contra, é (por) um mundo melhor! Gargalha com quem busca ‘’a salvação da humanidade’’, já que ‘’a tragédia na vida humana nada mais é senão a condição da vida tal como ela é’’!

Só temos isso no cardápio? A última opção é um tanto quanto… chata! Muito chata, não? Ao próximo!

Leandro Karnal diz ser radicalmente diferente do colega. Enquanto Pondé se vê como um conservador, Karnal prefere não se definir mas admite que acredita, sim, em um mundo melhor. Na sua entrevista ao Roda Viva da TV Cultura, deu opinião sobre tudo. Falou da inveja a felicidade, da história de Roma ao ‘’golpe de 2016’’. A careca branca, todavia, se avermelhou quando o assunto foi o ‘’Escola sem Partido’’. Se tivessem deixado ele no assunto por mais 30 segundos, facilmente ele diria que ‘’isso nem deveria ser discutido!’’

Karnal não é chato! Mas repete o problema que, aliás, tornou-se frequente na intelectualidade midiática.

Quando um intelectual com forte presença na mídia ataca um projeto político como o Escola sem Partido somente classificando-o como ”asneira sem tamanho” e ”bobagem conservadora”, ele não só se propõe a convencer unicamente os já convencidos, mas também leva a reprodução do comportamento do não-pensamento, do convencimento pela não apresentação de razões.

Ah! Mas uns podem dizer: ‘’Karnal é alguém bem-intencionado. É um cara de esquerda, a favor do mundo melhor!’’. Quem diz isso já está dentro do comportamento do não-pensamento. É alguém que se identifica com determinado intelectual pois escutar da boca dele algo que ele, ouvinte, já pensava o faz se sentir inteligente! É alguém que ama o conforto que um intelectual de mídia traz ao fim de um longo dia de trabalho.

Intelectual de mídia é como abelha de apicultura. Enquanto ele é o ser da crítica, ela é o da ferroada. Mas assim como ela não mais faz do que produzir mel a ser consumido por quem gosta, ele só fala o que seu público gosta de ouvir na hora certa e no local certo em que gostam de ouvi-lo!

Ora, a esquerda que conhece o valor de si, jamais deveria agir pela não-argumentação. Afinal, quem possui o depósito histórico de grande parte dos sonhos e lutas por um mundo melhor e age de modo a favorecer o status quo, age como a direita! E não é isso que convencer os já convencidos pode resultar tendo em vista que o senso comum é conservador?

O exemplo que devemos mirar é o da mosca. Mas a de Atenas! Era assim o apelido de Sócrates em Atenas. A figura socrática era a de alguém que importunava os cidadãos ao levar-lhes à auto-examinação. Não à toa, Platão, com sua filosofia de buscar a verdade pela razão para assim podermos ter uma cidade justa, não poderia ter sido discípulo de outro animal senão da mosca. Abelha? Só se for as de ferrão. E de preferência picando carecas!

Isaias Bispo de Miranda é violoncelista com formação na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP). Graduando do bacharelado em Ciências e Humanidades e do bacharelado em filosofia, ambos na Universidade Federal do ABC (UFABC), estuda a obra do filósofo alemão Peter Sloterdijk pelo Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA), onde também é membro.
Gostou? Compartilhe:

11 thoughts on “O que faz da esquerda, direita? Ou: Pondé e Karnal vão ao mesmo cabeleireiro

  1. Ser bem-intencionado empurrando um remédio, não serve. Dizer que o “escola sem partido” é ruim e pronto, sem permitir a conversa, é querer trocar um mal, talvez autoritário, por algo posto certamente autoritariamente.

  2. Gostei de seu texto, e vou usá-lo como exemplo em minhas aulas. Importa tanto os clássicos quanto os fracassos. É importante que os alunos tenham ciência do que não se deve fazer. Obrigado, e abraço!

    1. Falta! Felizmente eu tenho a sorte de poder esvaziar minha cabeça diariamente. Talvez seja por isso que, diferentemente de você, eu consiga ler um texto simples como esse e apresentar as razões de eu ter gostado ou não dele! Adeus.

  3. Você tem razão: Karnal errou feio ao se esquivar desse assunto. Mas não por falta de argumentos, garanto, mas por outro problema da esquerda: inúmeros saltos conceituais. Existe uma maldita falta de didática da esquerda para muitas de suas ideias. Eu sou crítico a escola sem partido, então a constatação do Karnal me pareceu obvia, mas a grande maioria do público não é. Existe uma dificuldade para os acadêmicos em delimitar o óbvio e o não-obvio.

    Não é comum ver lacunas assim nas falas do Karnal, eu mesmo só percebi isso nesta fala (do imenso acervo disponível dele na internet). Aceite isto de uma forma não negativa, mas a impressão que eu tive deste texto foi um pouco de oportunismo seu em vista do restante de todo o resto do conteúdo do Karnal. Não faz justiça ao que ele representa a divulgação científica na área de humanas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *