Eu entre estes e aqueles

Nesses tempos de pandemia estamos todos sozinhos e desamparados. Pelo menos nós, os de ‘’classe média PT’’, estamos sofrendo toda vez em que somos forçados a imaginar o amanhã. Não sabemos se poderemos manter o patamar mínimo de vida que a duras penas conquistamos. A chance maior é da piora de vida, claro. Mas enclausurados por medo do vírus e assustados com as contas que virão, a última coisa que queremos é tomar alguma ação destrambelhada, fruto do desespero, que possa dificultar ainda mais nossas vidas.

Há, por outro lado, quem esteja ainda pior. Não estão sofrendo com o dia que virá. Não estão absortos com as contas a chegar e nem com os empregos a sumir. Há uma multidão de gente no Brasil que não tem preocupação alguma! E não teriam nem se quisessem. Falo dos milhões de brasileiros que foram negados à imaginação. Falo dos milhões de brasileiros que todos conhecemos, embora estejam muito distantes de nós. Enfim… De quem é que eu estou falando?

O cidadão antissocial e bolsonarista convicto Roberto Justus se enquadra bem nesses brasileiros. Assim que começamos a sofrer com a pandemia ele foi a público dizer que não poderíamos parar por causa de alguns milhares que morreriam. Roberto Justus também é esse mesmo milionário que, após aceitar fazer quarentena, alternava diariamente entre a mansão e o iate… De helicóptero! Um cara desses não tem preocupação alguma. Nem mesmo recebe contas, já que a tarefa provavelmente é encarregada aos seus funcionários. E Justus está entre aqueles que estão sofrendo ainda mais que a média… Sofrendo no sentido mais irônico possível que eu já fui capaz de escrever!

Justus pode ser incapaz de imaginar o que quer que seja. Mas a impossibilidade de imaginar e de se preocupar que assola as reais pessoas que eu estou falando, ao contrário do empresário bolsonarista, se dá por outra razão que não por responsabilidade delas.

Existem os pobres no Brasil. E são milhões. Existem os miseráveis no Brasil. E são outros milhões.

Jamais vou parar de lembrar aos imigrantes que há entre nós que metade dos brasileiros recebem menos de meio salário-mínimo. São mais de 100 milhões de gente como a gente que a elas vêm sendo negada a possibilidade de se viver como gente. E é essa gente que tem ao seu lado aqueles que não bastando não ter a vida, também não têm a morte. Há os pobres, que mal vivem, e há também os miseráveis, que não raro são enterrados como indigentes!

Quem mal pode sustentar a alimentação dos filhos, não tem energia para imaginar mesmo que seja uma vida melhor. E quem não está podendo pegar nem resto de comida para alimentar a si próprio, se há muito já não conseguia se preocupar com alguma coisa, agora não deve estar conseguindo nem mesmo se levantar – dado a provável inatividade cerebral. Está morto mesmo!

O Brasil é o terrível país em que a luta de classes é percebida mais pela briga entre o trabalhador informal e o mendigo na fila do albergue do que pela desfaçatez com que a desigualdade entre ricos e pobres vem se aprofundando. A desigualdade, consequência do capitalismo, é global – todos sabemos. Mas no Brasil da Covid-19 o que era pior do que no resto do mundo vem se tornando ainda pior. E para piorar ainda mais, estamos assistindo ao crescimento estrondoso da miséria entre nós. Como não se indignar com um país desses? Não sou miserável e nem pertenço ao grupo de trabalhadores sem registro em carteira. Mas estou entre esses e os outros que não são os ricos… Sim! Não estou falando dos ricos que para muita gente são os verdadeiros culpados pela pobreza. Eu estou é entre estes – ricos, pobres, miseráveis etc. – e aqueles que sabem que o problema é o capitalismo. É a esse que devemos acusar.

Isaias Bispo de Miranda é graduando em Filosofia pela PUC-SP – 25 de maio de 2020.

One thought on “Eu entre estes e aqueles

  1. Tenho a percepção de que o Brasil foi tomado por uma ideologia de classe média que crer não existir mais pobreza no país. Talvez isso seja fruto dos governos do PT e de suas políticas sociais. Realmente acreditamos que o PT acabou com a pobreza no Brasil!

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