“Eu te amo”: um ataque

“Eu te amo”, você diz para ela. É a expressão de um sentimento. Que sentimento? O de que ela faz algo que te dá prazer. Você diz esta frase no exato momento em que sente o prazer. O amante estica a mão para pegar a flor. O que você espera ao dizer aquela frase? Conservar aquele objeto, a fim de garantir o prazer futuro.
 
Você espera que a flor estique a mão de volta para você. O amante, o ativo do amor, quer ser o objeto do seu amado. Quer tornar-se o amado dele, que ele passe a esticar a mão para pegá-lo.
 
O homem presenteia a mulher, oferece coisas que primeiramente enchem os olhos dele. Coisas bonitas. Ele quer que a mulher se veja refletida nessas coisas bonitas, e goste do doador daquele espelho. Ao fazer isso, o homem quer a recompensa de ser uma flor nas mãos da mulher.
 
Fedro, em seu discurso no Banquete, diz que os deuses têm admiração pela forma como o Aquiles amou Pátroclo, ambos personagens homéricos. Aquiles era um guerreiro excelente. Em sua tenda, tinha a companhia de Pátrocolo, que o servia, por amor. Os gregos estava sendo dizimados pelos troianos. Encontravam-se encurralados nas naus, quando Pátrocolo, ao ver a relutância de Aquiles em ajudar, vestiu a armadura do amado.
 
Pátrocolo pôs-se a lutar, e levou muitos à morte. Encontrou seu fim em Heitor, o comandante dos troianos. Ao saber da morte do seu amante, Aquiles sentiu terrível dor. A morte do amigo mostrara-lhe o caminho para o próprio destino. Vestiu-se de uma armadura especial, criada pelo deus Hefesto, e foi combater Heitor. A morte do troiano seria o seu último ato, ele sabia disso.
 
A flor esticou a mão para o seu amado. Aquiles tornou-se o amante daquele que um dia foi o amante dele. Lacan, no Seminário 8, retoma este discurso de Fedro para colocar o amor como a situação em que o amante torna-se o amado. Aquele que recebia os gestos de amor, os louvores, torna-se o autor deles. É isso que o homem espera que aconteça entre ele e a mulher a quem ele se dedica.
 
Mas o amor nem sempre é o resultado dos gestos de amor. O amado não responde como o amante gostaria que ele respondesse. Ele toma os presentes como agrados. Os agrados podem ser percebidos como geradores de dívida: “ele quer algo em troca…” vêm à cabeça do amado que não acredita mais que possa ocorrer o efeito mágico dos gestos do amor, ou seja, não acredita que possa novamente converter-se em amante daquele amante.
 
Quando isto ocorre, o amante também sabe que a mágica não está ocorrendo. Por isso, os presentes ou a frase “eu te amo” soam como ataque, com o sentido de “olha o que faço por você, enquanto você não faz nada por mim.”
A inversão da relação amante-amado, causada pelos gestos do amor, enquanto mágica, efeito de algo maior do que nós mesmos, acontece algumas vezes em nossas vidas. Se tivermos sorte. Meu texto pode ferir Eros. Num diálogo exclusivo entre Sócrates e Fedro, o primeiro, após ter deixado passar por sua boca um discurso detrator do amor, lavou os ouvidos, de modo a que pudesse limpar-se do mal causado ao deus. Ele queria continuar recebendo as suas benção. É por esse motivo que estou indo lavar meus olhos e dedos.
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