Gay natural

Faz um tempo que não ouço que alguém tenha “virado viado”. Ouço que “fulano é gay”, num certo tatear da fala, mas a coisa fica estabelecida. E não ocorre nenhum mal-estar. A fala comum mostra essa naturalização.

As ciências humanas e sociais, também atualmente, desdenham da naturalização, falam que tudo é construído. Algumas teorias iniciais dessas ciências usam modelos das ciências naturais, e metáforas naturalizantes. Aquele desdém científico acompanha o avanço do liberal: “o homem é um ser em construção”. Na sociedade, os ventos liberais sopram assim: “nenhuma essência vai me segurar!”

Mas, quando a fala comum começa a mostrar que entende que o gay o é desde criancinha, e que não tem mulher, surra, psicologo ou padre que mudem isso, apresenta-se uma naturalização, com força metafísica. E isso vem junto da aceitação. A virilidade não é mais importante. As pessoas estão querendo viver e deixar viver.

Refiro-me, aqui, às pessoas normais, aquelas que não fazem dos seus preconceitos slogans de marketing político, profissional ou de macheza.

As ciências usam a palavra “natureza” de forma metafísicamente desinflacionada (uma expressão de Rorty, que Ghiraldelli nos ensina). Desta forma, natureza pode querer dizer “o jeito, o modo de ser de algo”. Isto seria mais descritivo do que fundacional.

Para as ciências é difícil acompanhar as pessoas comuns na sua simples aceitação da diferença vista como, porque não, natural num sentido metafisicamente inflacionado. Agora, para os pseudotécnicos e autoritários, é impossível simplesmente deixar as coisas serem como são. Certo ressentimento não o permite.

Tudo bem, democracia é viver em conflito, e ver acordos momentâneos. Mas precisa ser conflitos em torno de burrice e atraso?

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