Go, Pokemon Go, Go!

Sou fotógrafo. Vejo as coisas melhor do que qualquer um. Meus olhos são meu objeto, minha palavra.

Não vejo diferença entre objeto e palavra na sua função de apoiar, para um sujeito, suas ideias de mundo e de eu.

Aceitamos que um velho, na rua, seja definido por sua bengala. A objetificação é um meio de fazer um mundo e um eu.

Há anos meus olhos estão no Facebook. Muitos dizem que falta “contato social real”. Falta a vergonha em se aproximar da garota que você viu no metrô. No Tinder você rapidamente fala com ela.

A palavra, o objeto, o virtual não fazem você perder o contato com uma tal “realidade”. Tampouco (agora considerando aqueles um pouco mais simpáticos a estas coisas) eles são mediadores entre um sujeito e um mundo. Não há sujeito e mundo sem palavra, objeto e virtual.

Diga-se, palavra e objeto podem ser sinônimos pois, sendo empregáveis de diversas formas, têm vários sentidos. E o virtual nada mais é do que a abertura do objeto e da palavra para novas possibilidades de sentidos.

No Atari você se distraía. Diziam que você se arriscava a alienar-se. Nos simuladores você brincava de realidade com algo que, sendo um objeto usado por você, já era a realidade. E te chamavam de completamente alienado. Uma pessoa que tenha perdido um olho, num acidente, e implanta um olho que capta elementos externos e os transforma em impulsos nervosos. Maravilha da ciência, não? Ninguém pensa em dizer que falta a ele um olho a olho ao paquerar alguém.

Vídeo-game, simulador e olho-chip são objetos que, poderíamos pensar, trazem realidade até nós. Mas, volto a te dizer, eles são a própria realidade. Um garoto que joga vide-game não é um garoto que poderia estar jogando basquete. Eu não posso dizer do que ele não é, apenas do que ele é: um garoto que joga video-game.

Aqueles objetos são a nossa realidade, assim como a caneta-tinteiro deixou de ser a nossa e a esferográfica ajustou-se à nossa mão, enquanto nossa mão ajustou-se a ela. Da mesma forma perdemos precisão de dedos e de raciocínio, com o fim das máquinas de escrever, e ganhamos agilidade e multiplicidade da mesma faculdade, nos pcs.

Nas redes sociais escrevo, sou lido e converso. Eu não fazia estas coisas antes. E agora não posso parar. Quero ir além disso, como um amputado de ambas as pernas que coloca aquelas próteses de corredor. Sua natureza mudou.

Pokemon Go, pelo nome, me manda ir. Não é mais o mundo que vem. A ideia é que eu vá. Que eu vá à padaria de sempre e lá veja o que pode acontecer. Se você é escritor ou pintor, isso não pode ser mal. Ou talvez você se incomode porque a novidade no cenário foi gerado por um computador, e não pelo acaso ou por Deus. Um homem criou um bicho que se esconde na sua rua, e este homem nem está próximo de você, para te ouvir. Mas não é assim que é feito com as mercadorias?

A realidade não é algo eternamente ameaçado pela aparência, conforme pensa o senso comum. O garoto que joga, o escritor, o fotógrafo e o corredor são potencialmente tão sensíveis à necessidade exposta de alguém na rua quanto qualquer outra pessoa. A realidade nada mais é do que um conjunto, sob o acordo de outras pessoas, de apareceres. E há os apareceres que sensibilizam mais.

O escritor bem sabe o quanto o que os olhos dele vêem está misturado ao que ele imagina. Aquele aplicativo de Snapchat, em que sua imagem aparece como a de um cachorro, que lambe, é uma proposta, dentre muitas outras que podem ser oferecidas, de como posso expressar o que imaginei para o meu aparecer.

Então o virtual não é só o Street View, que vejo no meu pc (e me procuro!), nem o Waze, que, no meu carro circulante, traça uma rota imaginária por várias ruas (e eu o sigo!). Agora é o Pikachu na praça do seu bairro. Lá existem crianças, e cada uma tem a sua brincadeira. E tem o Pikachu, com as brincadeiras dele. Posso escolher uma criança ou o bicho. Tanto faz, pois elas também escolhem entre mim e o bicho. Ou brincamos juntos, com o bicho.

A virtual-realidade tem tudo para deixar as coisas mais divertidas. Pense em filósofos que podem conversar com o Sócrates criado diante deles. Pense em cirurgiões que operem um corpo virtual conectado ao de um paciente, e tudo o que se passa com este também se passa com o virtual: o cirurgião intervirá sobre o virtual, abrindo-o, sem precisar abrir o não-virtual. No interior deste, um pequeno elemento dirige-se ao ponto em que o cirurgião está mexendo, e realiza sua operação com o menor dano possível ao paciente. Pense no estimulante sexual que não seria, quando você estiver cansada do seu marido, mudá-lo completamente, e fazer sexo com esse marido mudado?

Podemos assumir que o virtual é o além-da-realidade. Isso incomoda os “realistas”, que fazem suas visões a partir de teorias sociais e econômicas, atacam Grandes Males, e não olham para o mendigo na rua. Em relação a este mendigo, a virtual-realidade é olhá-lo imaginando-o melhor do que aquilo.

O virtual é o que pode vir a ser. Tem que ter inteligência livre e coração generoso para embarcar nessa. Por enquanto, vá experimentando-o no Pokemon Go.

Aliás, você já foi, né? Não é como esses bobos que gostariam de ir, mas estão pondo defeito.

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2 thoughts on “Go, Pokemon Go, Go!

  1. Muito legal seu texto, Thiago!

    Hoje mesmo estava pensando no tempo que perdi (ou ganhei, se eu adotar o otimismo de boteco de que toda experiência é positiva) em um grupo de pesquisa na faculdade estudando quais as diferenças entre o real e o virtual e como um interfere no outro no mundo atual. Estava pensando nisso porque estava pensando em outro assunto, i.é, se é certo considerar determinadas teorias um lixo, mesmo que elas sejam respeitadas em algumas correntes acadêmicas. E de fato, considero tudo que desenvolvi naqueles dois anos puro lixo filosófico, algo que eu pegaria e enfiaria na minha própria bunda.

    Como você disse, o virtual também é uma realidade. Mas nós tendemos a considerar a experiência virtual uma experiência com algo que “não existe”.

    Ora, Husserl e Russel já cansaram de nos explicar sobre a bobagem que é dizer isso. Husserl diz que até mesmo os nossos sonhos são experiências. Se você usar LSD e ver dragões com cara de cachorro correndo atrás do seu gato, e você começar a rir disso porque também gosta de correr atrás de gatos, você não pode negar que isso foi uma experiência, e que o fato dela ter sido quase puramente mental não tira dela o status de “real”. A realidade virtual, mental ou seja lá o que queira se chamar não é uma realidade menos importante do que a realidade “bruta” que queremos considerar a mais importante.

    Russel, por outro lado, explica como toda a física moderna foi construída com base em preconceitos que criamos a partir das relações dos nossos sentidos com os objetos que nos cercam. Construímos teorias físicas a partir da ideia de que o tato é mais confiável do que a visão, já que esta tende a nos enganar e não mostrar o que está por trás das aparências. E depois, ao observarmos os planetas, aplicamos essas teorias baseadas no nosso tato para explicar o funcionamento do universo. A partir disso, é claro que uma experiência mental ou virtual, que não causa nenhuma alteração no tato (tirando o contato dos nossos dedos com a “tecnologia mediadora” — outra bobagem) tem menos prestígio do que uma experiência de luta de greco romana, por exemplo.

    1. Acho que o virtual merece uma descrição independente do que chamamos de realidade. Sim, no texto eu disse que é uma forma de realidade. Foi para tentar quebrar a ideia de que o virtual é um menos ou um mais em relação à chamada realidade. Essas comparações mantém a distinção entre eles, quando, antes, é necessário conhecermos o virtual. O que tem sido feito, ao se dizer virtual, é tentar arrancar algo da realidade. Talvez, para o conhecermos, tenhamos que usar os recursos da observação da realidade. Mas talvez consigamos recursos novos. A ideia de espaço surreal, acho, vai por aí.

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